A polarização política segue dominando o cenário eleitoral brasileiro e reduzindo o espaço para candidaturas consideradas de “terceira via”. É o que aponta a mais recente pesquisa da Quaest, que mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro concentrando a maior parte das intenções de voto para a disputa presidencial.

Segundo o levantamento, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro soma 33%. Mais distantes, surgem o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, ambos com 4%. Já Renan Santos registra 2%.
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, afirma que a polarização atualmente concentra cerca de 72% das intenções de voto, reforçando a dificuldade de surgimento de uma alternativa competitiva fora dos dois campos políticos predominantes. Para ele, apesar de existir uma parcela do eleitorado que rejeita tanto o lulismo quanto o bolsonarismo, a fragmentação das candidaturas dificulta a consolidação de um nome forte.
A própria pesquisa mostra que cerca de 32% dos brasileiros se definem como independentes, afirmando não se identificar nem com a esquerda nem com a direita. Ainda assim, esse grupo não tem conseguido transformar a insatisfação em apoio consistente a uma candidatura alternativa.
Historicamente, candidatos apresentados como terceira via encontraram dificuldades para romper a lógica bipolar das eleições presidenciais brasileiras. Em 2014, Marina Silva chegou perto de avançar ao segundo turno após substituir Eduardo Campos na disputa presidencial, mas acabou ficando fora da etapa decisiva. Em 2018 e 2022, Ciro Gomes e Simone Tebet também não conseguiram ameaçar os candidatos líderes.
Especialistas avaliam que a dificuldade da terceira via está ligada não apenas à força dos polos políticos, mas também ao comportamento dos próprios partidos, que frequentemente lançam múltiplos candidatos ao mesmo tempo, fragmentando o eleitorado que busca alternativas.
No atual cenário, Caiado e Zema tentam ocupar esse espaço, embora adotem estratégias diferentes. Caiado busca uma postura considerada mais moderada e administrativa, enquanto Zema aposta em um discurso mais alinhado à ideia de outsider e de enfrentamento ao sistema político tradicional.
Para cientistas políticos, ambos ainda enfrentam o desafio de se diferenciar efetivamente do bolsonarismo e conquistar eleitores independentes que demonstram crescente descrença na política tradicional.
A trajetória eleitoral brasileira reforça esse padrão. Desde a redemocratização, em 1989, as eleições presidenciais têm sido marcadas pela predominância de dois grandes campos políticos em disputa. Após duas décadas de confrontos entre PT e PSDB, o bolsonarismo assumiu o papel de principal força de oposição ao lulismo a partir de 2018.
Analistas também destacam que o crescimento da polarização, somado ao chamado “voto útil”, reduz ainda mais as chances de candidaturas alternativas avançarem. Em cenários de forte divisão ideológica, muitos eleitores acabam escolhendo candidatos com maior potencial competitivo para evitar a vitória do campo adversário.
