Investigação revelada pela Revista Piauí aponta que a maior narcotraficante do país teria articulado pagamento de propina para decisões judiciais; magistrado maranhense nega: “nem conheço”.

Em ampla reportagem investigativa, a Revista Piauí revela as entranhas de um sofisticado esquema de corrupção no Judiciário brasileiro, comandado por Karine de Oliveira Campos, considerada a maior narcotraficante do país.

Narcotraficante Karine de Oliveira Campos

A investigação detalha como milhões de reais em propina foram movimentados para comprar decisões judiciais e liberar criminosos de alta periculosidade.

O esquema não se restringiu à capital federal, alcançando também o Maranhão, onde dois desembargadores federais são citados no contexto de negociações espúrias para a concessão de habeas corpus. Ouvido, um deles negou qualquer envolvimento no esquema.

A matéria expõe a fragilidade das instituições diante do poder financeiro do narcotráfico, que utiliza advogados influentes e lobistas para circular livremente nos corredores dos tribunais.

MATÉRIA NA ÍNTEGRA DA REVISTA PIAUÍ:

*Por Allan De Abreu

Às 6h40 do dia 27 de agosto de 2019, três agentes e um escrivão da Polícia Federal tocaram a campainha da casa de portão branco no bairro Carandá Bosque, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Eles cumpriam um dos trinta mandados de busca da Operação Alba Virus, cujo nome significa em latim “vírus ou veneno branco”.

Era uma referência clara ao fato de que a operação desvendara o esquema de tráfico de cocaína para a Europa. Quem abriu a porta foi uma mulher, que se identificou como Sandra de Oliveira. Os policiais pediram um documento de identidade, mas ela disse que não tinha nenhum naquele momento.

A equipe da PF aceitou a explicação e, em seguida, apreendeu um veículo, celulares, papéis rasgados com anotações e uma aliança com o nome “Karine” gravado na parte interna. Na bolsa da mulher, os policiais acharam mais de 5 mil reais em espécie. Às 8 horas, depois de Sandra de Oliveira assinar o recebimento do mandado, a equipe da PF foi embora.

Como as operações policiais são compartimentadas, cada equipe que integra a fase ostensiva tem informações apenas das pessoas e endereços dos mandados que lhe cabem cumprir. Portanto, os policiais em Campo Grande não sabiam que, naquele exato momento, a verdadeira Sandra de Oliveira estava sendo presa a 1,2 mil km dali, em Itajaí, no litoral de Santa Catarina.

E que a mulher que se apresentou como Sandra era ninguém menos que Karine de Oliveira Campos, o alvo mais importante da Operação Alba Virus, cuja prisão temporária havia sido decretada. Aos 40 anos, ela comandava a quadrilha de traficantes. Sandra de Oliveira é sua mãe.

Chamou a atenção que os quatro policiais nada desconfiaram sobre uma mulher sem carteira de identidade e com mais de 5 mil reais na bolsa, em um endereço ligado a um grupo de narcotraficantes. Em casos assim, os policiais devem levar a pessoa à delegacia para confirmar sua identidade. Não se sabe se os quatro policiais foram corrompidos, ou apenas escrachadamente incompetentes. Uma sindicância não encontrou nada de irregular, e o caso acabou arquivado.

Karine Campos escapou por dentre os dedos da PF, apesar de ser considerada a maior narcotraficante brasileira, em um negócio dominado por homens. Só no último semestre de 2018, menos de um ano antes da batida policial em sua casa, ela enviara mais de 3 toneladas de cocaína para o exterior por meio dos portos de Santos (SP), Paranaguá (PR) e Navegantes (SC).

Apesar de perder seus alvos principais — além de Karine Campos, seu marido e braço direito, Marcelo Mendes Ferreira, também conseguiu escapar —, a Operação Alba Virus trouxe sérios prejuízos para o casal. No saldo final, acabaram presos a mãe de Campos e dez subordinados dela que coordenavam a logística de transporte da droga até os portos. Os nomes de Campos e Marcelo Ferreira foram incluídos na lista da Interpol.

Preocupada com o risco de voltar para de trás das grades com o marido, oito anos depois de ambos terem deixado a prisão, Campos foi à luta. Passou a mobilizar traficantes, lobistas e advogados para corromper o Judiciário, não só nas ações penais decorrentes da Alba Virus, mas em outras operações policiais contra ela, o marido e os criminosos aliados. Ao menos nos últimos seis anos, Campos fez da corrupção da cúpula do Judiciário uma prática constante.

Na clandestinidade, movimentou malas com milhões de reais em espécie entre Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, e conversou abertamente com seus comparsas sobre o pagamento de propina a juízes em aplicativos de mensagens criptografadas. Embora não sejam filiados a nenhuma facção criminosa, Karine Campos e Marcelo Ferreira são próximos da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), com destaque para André Oliveira Macedo, conhecido como André do Rap.

De acordo com a PF, André do Rap é um dos principais parceiros comerciais de Campos e Ferreira na remessa de cocaína para a Europa. Em razão dos negócios, a traficante e o marido sempre se interessaram em ajudar a tirar André do Rap da cadeia. Acionaram advogados e, em setembro de 2020, o recurso acabou distribuído para o ministro Marco Aurélio Mello, no STF.

A piauí apurou que o traficante dizia ter pago 5 milhões de dólares — mais de 30 milhões de reais — por um habeas corpus favorável. Em 6 de outubro de 2020, Marco Aurélio concedeu liminar revogando a prisão de André do Rap. O traficante saiu da prisão e fugiu de helicóptero para o Paraguai, nunca mais sendo encontrado.

Passado pouco mais de um ano da soltura de André do Rap, Karine Campos comandou uma operação escusa para corromper a Justiça e livrar um subordinado da cadeia: Leonardo Costa Nobre. As conversas interceptadas revelaram um caso de corrupção no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília.

O advogado João Paulo Todde Nogueira foi contratado para obter o benefício. Em um manuscrito, Costa Nobre pedia 2 milhões de reais para a “madrinha” (Karine), afirmando: “É 1 milhão para cada desembargador, preciso de 2 votos dos 3 da Quarta Turma”.

A investigação aponta que o contato para os esquemas ilícitos dentro do TRF da 1ª Região seria o desembargador Ney de Barros Bello Filho, ex-cunhado de Cândido Ribeiro. Juliana, irmã de Costa Nobre, afirmou em ligações que Ney Bello “ganha uma beirada” e que o advogado teria dado 1,5 milhão de reais ao desembargador.

Em nota à piauí, Ney Bello negou qualquer relação com o advogado ou o caso.O esquema também envolveu Ravik de Barros Bello Ribeiro, filho do desembargador Cândido Ribeiro. Ravik foi flagrado em reuniões com os familiares do traficante e, segundo a PF, recebeu uma caixa contendo parte da propina em Belo Horizonte.

Em março de 2023, a PF cumpriu mandados de busca, apreendendo 270 mil reais em dinheiro vivo na casa de Ravik. O desembargador Cândido Ribeiro foi aposentado por invalidez pouco depois.


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