Uma crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), investigações da Polícia Federal e possíveis conexões políticas voltou a tensionar o ambiente em Brasília.

O episódio ganhou novos contornos após a revelação de mensagens atribuídas ao empresário Daniel Vorcaro enviadas ao ministro Alexandre de Moraes no dia de uma prisão relacionada ao chamado “caso Master”.

Em meio às repercussões, a colunista Malu Gaspar analisa, em artigo publicado no jornal O Globo, os impactos do episódio para o STF, o governo federal e o cenário político nacional.

A seguir, a íntegra do artigo:

Desde que a bomba do caso Master voltou a estourar no colo do Supremo Tribunal Federal, com a descoberta de que Daniel Vorcaro enviou mensagens a Alexandre de Moraes no dia da prisão perguntando se ele “conseguiu bloquear”, os ministros parecem perdidos, sem saber o que fazer. Pelos relatos de quem frequenta os corredores e gabinetes, quem não está perplexo está furioso. Estão tão acostumados a pairar acima de tudo e todos no ecossistema de Brasília que se mostram sem repertório para lidar com uma premissa básica da democracia: têm obrigação de prestar contas à sociedade.

A crise se agravou tanto que o Código de Ética defendido pelo presidente da Corte, Edson Fachin, hoje teria o efeito de um band-aid cobrindo uma fratura exposta. E, ainda assim, a proposta não andou um milímetro desde que a ministra Cármen Lúcia foi designada relatora.

A única reação ensaiada até agora veio da ala furiosa da Corte, que passou a cobrar do governo Lula uma grande operação abafa a partir da interferência na Polícia Federal (PF). O núcleo que orbita em torno de Moraes e de Dias Toffoli se julga abandonado pelo Palácio do Planalto. Afinal, o Supremo Futebol Clube vem matando no peito todas as bolas tortas que o governo não consegue defender no Congresso. Por esse argumento, o mínimo que Lula poderia fazer é anular a PF em nome dessa aliança.

É uma visão ao mesmo tempo alienada e ingênua. Alienada, porque faz questão de ignorar a dimensão que o caso ganhou e o quanto o Supremo está machucado pela crise. Na falta de sensibilidade política, já começam a surgir indicadores como a pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira mostrando que 35% dos que tomaram conhecimento do escândalo associam o STF, e 70% desse universo considera que a imagem do Supremo está abalada. O mesmo levantamento aponta que 44% dizem que a chance de votar num candidato a senador nas próximas eleições aumentará caso ele apoie o impeachment de ministros. Os pesquisadores do Planalto e do bolsonarismo já perceberam essa tendência, daí por que não faz sentido para Lula se afundar com o Supremo.

Nesse contexto, é de uma suprema ingenuidade imaginar que o presidente, que já largou pelo caminho aliados de uma vida, vai se sacrificar agora por causa das lambanças de Toffoli e Moraes. Também surpreende a suposição de que a troca do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues — que, apesar do relatório sobre Toffoli, sempre se portou como aliado de Moraes —, vai anular o trabalho de dezenas de delegados e agentes. Tal algo que nem Bolsonaro conseguiu, mesmo tentando muito. Além disso, a esta altura da investigação seria inútil.

Embora ainda falte muita coisa para vir à tona, o número de versões de celular de Vorcaro nas mãos de investigadores já é grande o suficiente para que não se possa mais eliminá-las completamente.

Ao substituir Toffoli na relatoria do caso, o ministro André Mendonça ainda estabeleceu contato direto com os delegados e os proibiu de passar informações a superiores hierárquicos. Pelo jeito, já andava de pé atrás com os uísques caros que Andrei tomou em Londres em abril de 2024 com Moraes, Paulo Gonet e Ricardo Lewandowski, entre dezenas de outras figuras — tudo bancado por Vorcaro.

Isolado no Supremo desde que assumiu o cargo, Mendonça foi o único a votar pela suspeição de Moraes para julgar a trama golpista. É cedo para dizer se abrirá alguma investigação contra o colega de Corte, mas não para constatar que, se em algum momento houve alguma chance de enterrar a apuração, ela já ficou no passado.

Para completar o quadro, os documentos com sigilos fiscais do Master, da Reag e de Vorcaro que vêm desembarcando nas CPIs do INSS e do Crime Organizado já começam a vir à tona, colocando em xeque as lideranças do Centrão. O primeiro a ser alvejado foi ACM Neto (União Brasil), que os repórteres do GLOBO descobriram ter recebido R$ 3,6 milhões de Master e da Reag via empresa de consultoria.

Ninguém tem dúvida de que vem muito mais por aí. Não foi por outra razão que os presidentes do Senado e da Câmara adotaram nesta semana o regime de sessões semipresenciais, evitando debates no plenário e driblando a pressão para decidir sobre os pedidos de CPI sobre a mesa. Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB) querem mais é ser esquecidos, enquanto tentam achar uma forma de não ser tragados pelo escândalo. É o máximo que podem fazer no momento pelo STF. Diante da situação, é impossível não se lembrar do diálogo com a namorada em que Vorcaro diz ser “a anarquia do sistema”. A partir de agora, é cada um por si. Quem não entender isso se afundará ainda mais rápido.


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