O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa, nesta quinta-feira (6), da abertura da Cúpula do Clima de Belém, evento preparatório que reúne delegações de 143 países e encerra na sexta-feira (7).

A conferência antecede a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que começa oficialmente na próxima segunda-feira (10) e se estenderá até o dia 21 deste mês.
A capital paraense se transforma no epicentro mundial das discussões sobre o clima, devendo receber cerca de 100 mil visitantes entre líderes, diplomatas, cientistas e ativistas.
O evento também será um teste logístico para a cidade, que ainda enfrenta gargalos de hospedagem e mobilidade urbana.
Entre os líderes confirmados estão Emmanuel Macron (França), Keir Starmer (Reino Unido) e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia.
BRASIL BUSCA PROTAGONISMO CLIMÁTICO
Para o professor Eduardo Viola, da UnB, FGV e USP, a candidatura do Brasil para sediar a COP30 teve como principal meta reposicionar o país como protagonista global nas negociações climáticas.
Segundo ele, Lula procurou ocupar o vácuo de liderança deixado pela União Europeia, que redirecionou parte de seus recursos ambientais para gastos militares após a guerra na Ucrânia.
O cientista político Caio Victor Vieira, da ONG Talanoa, reforça que o Brasil vive um momento de reintegração internacional após o isolamento diplomático do governo Bolsonaro.
A COP30, assim como a presidência brasileira do G20 e a Cúpula da Amazônia, é vista como um dos pilares da estratégia de Lula para projetar uma nova imagem do Brasil no cenário internacional.
MULTILATERALISMO EM XEQUE
A agenda ambiental de Lula está ancorada no multilateralismo, ou seja, na construção de alianças internacionais em torno de objetivos comuns. Mas esse pilar foi abalado pela volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em 2024.
Trump retomou o discurso negacionista sobre o aquecimento global, anunciou a saída dos EUA do Acordo de Paris e classificou a “pegada de carbono” como “uma farsa”. O país ainda participa da COP30, mas com uma delegação sem peso político.
Mesmo assim, a diretora do instituto Plataforma Cipó, Maiara Folly, considera que o Brasil tem conseguido manter os demais países engajados no processo de negociação climática
CONTRADIÇÕES INTERNAS E CRÍTICAS AO PETRÓLEO
No campo doméstico, Lula tenta usar a COP30 também como instrumento de prestígio político interno, reforçando vínculos com setores ambientalistas e progressistas.
O governo comemora a menor taxa de desmatamento da Amazônia desde 2017 — 5.796 km² entre julho de 2024 e agosto de 2025 —, mas enfrenta críticas pelo aval do Ibama à exploração de petróleo na Foz do Amazonas.
Durante visita ao Pará, Lula justificou a decisão alegando que o Brasil não pode “abrir mão do petróleo” neste momento. Para Eduardo Viola, a postura contraditória enfraquece a liderança climática brasileira.
DESAFIOS DA COP30
Segundo especialistas, a diplomacia brasileira enfrentará três grandes gargalos durante a conferência em Belém:
1. Financiamento climático
O principal impasse gira em torno do volume de recursos que os países ricos devem destinar aos países em desenvolvimento para ações de mitigação e adaptação.
O chamado “mapa do caminho”, elaborado em parceria entre as presidências da COP29 (Azerbaijão) e da COP30 (Brasil), propõe medidas como taxação de jatinhos e dos super-ricos, mas ainda precisa de aprovação formal. Para Vieira, se o texto for vago, os países pobres reclamarão; se for rígido, os ricos reagirão.
O Brasil também tenta emplacar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), com meta de arrecadar até US$ 125 bilhões a longo prazo. Por enquanto, só o governo brasileiro anunciou aporte inicial de US$ 1 bilhão.
2. Metas climáticas (NDCs)
Apenas 64 países entregaram suas novas metas nacionais de emissões (NDCs), muito abaixo dos 125 esperados. A atual meta do Brasil prevê redução de 53% das emissões até 2030 e neutralidade de carbono até 2050.
Relatório do PNUMA divulgado nesta semana alerta que as NDCs apresentadas são insuficientes para limitar o aquecimento global a 1,5°C.
Para analistas, o sucesso da COP30 será medido pela capacidade do Brasil de evitar impasses diplomáticos e equilibrar discurso e prática ambiental.
A Cúpula do Clima de Belém, portanto, não é apenas o prólogo de mais uma COP — é o maior teste do terceiro mandato de Lula no cenário internacional.






