O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como “inadmissível” a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Lula afirmou que o governo brasileiro recorrerá à Organização Mundial do Comércio (OMC) e que, se a medida for mantida, responderá com contramedidas previstas na Lei da Reciprocidade.
A decisão de Trump foi publicada em seu site oficial e relaciona a nova tarifa a uma suposta “perseguição judicial” ao ex-presidente Jair Bolsonaro, fazendo menção direta às investigações em curso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Para Lula, o gesto é uma clara interferência indevida nos assuntos internos do Brasil.
“É inaceitável que o presidente Trump publique uma carta dizendo que é preciso acabar com a caça às bruxas. Isso é inadmissível. Aqui existe Justiça, e todos têm direito à presunção de inocência. Se alguém errou, será punido conforme a lei brasileira. Não cabe a outro país julgar isso”, declarou Lula.
O presidente reforçou que manterá a serenidade, mas avisou que o Brasil está preparado para agir com firmeza.
Ele destacou que o país utilizará os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade, sancionada por ele em abril deste ano, que permite a retaliação a barreiras comerciais, legais ou políticas aplicadas por outros países.
“O Brasil vai acionar a OMC, buscar o apoio de outras nações e, se não houver solução, aplicaremos a reciprocidade já a partir de 1º de agosto, quando a tarifa de Trump entra em vigor”, afirmou.
DECISÃO GERA REAÇÃO DIPLOMÁTICA
Lula informou que o Itamaraty está avaliando a possibilidade de adotar medidas diplomáticas mais duras, como a convocação da embaixadora brasileira em Washington para consultas em Brasília — um gesto considerado forte no meio diplomático.
A decisão de Trump pegou o governo brasileiro de surpresa, especialmente por ter sido anunciada logo após a Cúpula do Brics, realizada no último fim de semana no Rio de Janeiro.
Na ocasião, Lula discursou ao lado de líderes de países emergentes e reforçou a soberania dos integrantes do grupo diante de pressões externas.
Durante o encontro, Trump já havia ameaçado impor uma tarifa de 10% a qualquer nação que se alinhasse politicamente ao Brics.
“Aqui somos países soberanos e não aceitamos intromissão de ninguém. Estamos discutindo comércio mais justo, inclusive com a possibilidade de usar moedas próprias ou nacionais nas transações entre os países do Brics, sem depender do dólar”, afirmou Lula durante a cúpula.
REUNIÃO COM EMPRESÁRIOS E BUSCA POR NOVOS MERCADOS
Lula também adiantou que se reunirá com empresários brasileiros que exportam para os Estados Unidos a fim de traçar estratégias diante da nova taxação.
“Espero que esses empresários estejam alinhados com o governo brasileiro. Este é o momento de mostrar que exigimos respeito no cenário internacional”, afirmou.
O presidente acrescentou que seu governo já trabalha para ampliar mercados para os produtos brasileiros em outras regiões do mundo, como forma de reduzir a dependência do comércio com os EUA.
Questionado sobre a ausência de diálogo direto com Donald Trump desde sua posse, Lula revelou que enviou uma carta parabenizando o americano pela vitória eleitoral, mas que “não há motivo para conversa”.
Ele criticou a forma como a medida foi comunicada: “Trump não teve a consideração de ligar para o Brasil ou enviar uma carta oficial. Ele publicou a decisão no site dele, o que é uma falta de respeito, mas é algo típico dele.”
