A organização Transparência Brasil divulgou um relatório no qual aponta a existência de um suposto “orçamento paralelo” de R$ 8,5 bilhões vinculado ao Palácio do Planalto, mas usado para contemplar emendas parlamentares por meio de uma engenharia que burla as regras de transparência impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Hugo Motta, Lula e Davi Alcolumbre

Segundo a entidade, o recurso, oficialmente oriundo do orçamento do Executivo, vem sendo repartido entre deputados e senadores com a chancela do governo federal.

A prática seria fruto de um acordo entre o Congresso Nacional e o Planalto, com intermediação da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), e busca atender à crescente demanda dos parlamentares por influência no Orçamento. Em troca, o governo tenta garantir apoio político no Congresso.

A Transparência Brasil compara a manobra ao antigo “orçamento secreto” — declarado inconstitucional pelo STF em 2022 por falta de publicidade e rastreabilidade. Agora, com um novo formato, parte das emendas de comissão foi reclassificada como despesas RP 2 (Executivo) e RP 3 (Casa Civil), escapando da exigência de identificação dos autores e beneficiários.

Como funcionam as emendas paralelas?

As emendas parlamentares são mecanismos legais para que deputados e senadores direcionem recursos do Orçamento da União a projetos em seus estados e municípios. Desde 2020, as chamadas emendas de comissão devem ser classificadas como RP 8, com exigência de transparência e caráter impositivo — ou seja, pagamento obrigatório.

Entretanto, em 2025, das 335 emendas aprovadas pelo relator do Orçamento, senador Angelo Coronel (PSD-BA), apenas 57% (R$ 11,5 bilhões) foram formalizadas como RP 8. O restante foi repartido como RP 2 (R$ 4,5 bilhões) e RP 3 (R$ 4 bilhões), sem a mesma obrigatoriedade de transparência. No total, essas emendas “paralelas” somam R$ 8,5 bilhões.

Além disso, essas despesas não aparecem de forma detalhada no Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) nem no Portal da Transparência, descumprindo as diretrizes estabelecidas em portaria interministerial publicada após a votação do Orçamento.

Repartição desigual entre casas e partidos

O Senado Federal, sob a presidência de Davi Alcolumbre (União-AP), foi o maior beneficiado com as emendas paralelas, recebendo R$ 5 bilhões — valor superior aos R$ 3,8 bilhões destinados ao Senado por meio das emendas de comissão RP 8.

Na Câmara, presidida por Hugo Motta (Republicanos-PB), foram R$ 2,9 bilhões em RP 2 e RP 3. Ao todo, Motta terá sob sua gestão cerca de R$ 10,56 bilhões em recursos de comissão. Já o Congresso Nacional, como instância mista, ficou com R$ 650 milhões.

Por outro lado, o relatório critica a distribuição desigual dos valores entre os partidos. O PL, principal partido de oposição, viu sua fatia de orçamento saltar de R$ 4,9 bilhões para R$ 7 bilhões com as novas emendas. Já o MDB, aliado do governo, passou de R$ 2,6 bilhões para R$ 6,4 bilhões, com destaque para R$ 3 bilhões em recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

O PT, partido do presidente Lula e que preside seis comissões, ficou com apenas R$ 168 milhões — todos classificados como RP 2.

Outro dado preocupante revelado pela Transparência Brasil é que os recursos impositivos (RP 8) foram distribuídos apenas entre 9 das 52 comissões permanentes do Congresso. A maioria das comissões, portanto, depende exclusivamente das emendas paralelas — com menor rastreabilidade.

A entidade afirma que esse tipo de distribuição favorece o uso político das verbas, já que a definição do destino final ocorre sem critérios claros, muitas vezes guiada por interesses eleitorais locais e sem integração ao planejamento federal.


Comentário no post: “Relatório aponta suposto orçamento “paralelo” de R$ 8,5 bi operado entre Congresso e Planalto

  1. Todos no mesmo barco com mestre e contra-mestre, no mesmo balaio de gato, na mesma balsa furada prestes a ir a pique…
    Somos todos culpados por colocar esses ‘probos’ cidadãos nos cargos de mando, comando e desmando.
    A coisa está tão difícil no Brasil, que para ficar ruim tem que piorar muito…

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