O presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou que as suspeitas de espionagem digital praticadas pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contra autoridades paraguaias reabrem feridas históricas nas relações entre os dois países.

Em entrevista à Rádio Mitre, da Argentina, Peña classificou a situação como “desagradável” e lembrou a Guerra do Paraguai (1864–1870) como um marco de trauma para o país vizinho.

“É uma notícia bastante desagradável. Você sabe que o Paraguai tem uma história bastante dura na região, certo?”, disse o presidente paraguaio.

Ele se referiu ao conflito da Tríplice Aliança — formado por Brasil, Argentina e Uruguai — contra o Paraguai, que culminou na ocupação do território paraguaio por tropas brasileiras por quase uma década após o fim da guerra.

“Em um momento da nossa história, tivemos que enfrentar uma guerra de extermínio, que foi a Guerra da Tríplice Aliança, contra três irmãos — Uruguai, Argentina e Brasil — mas principalmente liderada pelo Brasil. E, depois da guerra, o Brasil permaneceu em território paraguaio por quase uma década. Essas são feridas que estamos buscando curar”, afirmou Peña.

“Infelizmente, este episódio apenas reabre essas velhas feridas, quando o que queremos é deixar para trás essa história de ódio e ressentimento, que vinha principalmente de fora para o Paraguai. Infelizmente, hoje percebemos que esses sentimentos ainda existem”, completou.

Na última quinta-feira (3), o Ministério Público do Paraguai abriu um processo criminal para apurar suspeitas de espionagem digital promovida pela Abin.

Segundo as investigações, sistemas de autoridades e agências paraguaias teriam sido alvos de invasões coordenadas a partir do Brasil.

Diante do caso, o governo paraguaio convocou o embaixador do Brasil em Assunção, José Antônio Marcondes, para prestar esclarecimentos ainda no início da semana.

As suspeitas surgiram após um funcionário da Abin prestar depoimento à Polícia Federal (PF) brasileira, no qual afirmou que a atual gestão da agência deu continuidade a operações de invasão hacker a sistemas do governo paraguaio.

O alvo principal seria a coleta de informações sigilosas relacionadas às negociações do Anexo C do Tratado de Itaipu, que trata da comercialização da energia gerada pela usina binacional.

As ações teriam mirado órgãos como o Congresso do Paraguai, a Presidência da República e outras autoridades envolvidas nas tratativas sobre Itaipu.

O depoente também revelou que as operações começaram ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, mas continuaram sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo ele, a continuidade das ações teve autorização expressa do atual diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa, e de Saulo de Cunha Moura, que ocupou o cargo interinamente em maio de 2023.

Em nota, o governo Lula afirmou que interrompeu as operações assim que teve conhecimento delas, em março de 2023.

A denúncia integra as investigações da Polícia Federal sobre uma suposta estrutura paralela dentro da Abin, que teria utilizado os recursos de inteligência do Estado brasileiro para fins ilegais.


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