“Estão investigando a fonte do jornalista e o advogado do jornalista, mas não investigam o que o jornalista denunciou, que foi o uso irregular dos carros oficiais”.
A declaração foi dada à CNN pelo advogado do ex-secretário Raimundo Cutrim, José Berilo de Freitas Leite, ao ser abordado sobre a nova operação determinada pelo ministro Alexandre de Moraes no Maranhão e novamente contra Cutrim.

A decisão traz uma questão que não deveria ser tratada como detalhe. Depois de ter os aparelhos telefônicos apreendidos, o jornalista Luís Pablo está teve suas comunicações utilizadas para identificar Raimundo Cutrim como a pessoa apontada como fonte das reportagens sobre o suposto uso irregular de carros oficiais por Flávio Dino e familiares. Agora, Cutrim volta a ser alvo de busca e apreensão, enquanto o advogado do jornalista também é atingido pela medida. A investigação avançou sobre quem forneceu a informação e sobre quem estava ligado ao trabalho jornalístico. Mas permanece a pergunta que está na origem de tudo: quem está investigando o fato grave denunciado contra o
ministro Flávio Dino?
Não é uma pergunta menor. Quando uma reportagem aponta possível utilização irregular de patrimônio público, o caminho natural de qualquer investigação deveria ser conferir a denúncia, verificar documentos, registros, pós-registros, autorizações e circunstâncias. Se a informação estiver errada, que seja desmentida pelos fatos. Se estiver correta, que sejam apontadas as responsabilidades. O que não parece razoável é a fonte ocupar o centro da investigação enquanto o conteúdo levado ao conhecimento público permanece sem o mesmo nível de esclarecimento.
É justamente essa inversão que torna a nova operação tão preocupante. Não se discute aqui se Raimundo Cutrim deve ou não ser investigado. Se houver suspeitas de crimes, que sejam apuradas. O mesmo vale para o jornalista e seu advogado. O problema é outro: descobrir quem forneceu uma informação não significa descobrir se a informação é verdadeira. A origem da denúncia pode ser relevante para uma investigação, mas não substitui a apuração do fato denunciado.
A declaração do advogado de Cutrim, José Berilo de Freitas Leite, resume a contradição. À CNN Brasil, ele afirmou que estão investigando a fonte do jornalista e o advogado do jornalista, mas não aquilo que o profissional denunciou: o suposto uso irregular dos carros oficiais. É uma manifestação da defesa, mas a questão levantada por ela ultrapassa os interesses do próprio Cutrim. Diz respeito ao funcionamento de uma imprensa que depende de fontes para revelar informações que, muitas vezes, não chegam espontaneamente às instituições.
O sigilo da fonte não existe para proteger crimes. Existe para proteger o exercício do jornalismo. E justamente por isso a utilização de instrumentos de investigação para chegar à fonte de uma reportagem exige cautela. Em março, quando Luís Pablo foi alvo de busca e apreensão, entidades como a ABERT, a ANER e a ANJ já haviam alertado para os riscos de medidas que pudessem atingir essa garantia constitucional. Agora, meses depois, a investigação volta a avançar na mesma direção, e desta vez alcançando quem teria fornecido as informações ao jornalista.
Há ainda uma circunstância que não pode ser ignorada. A denúncia envolve um ministro do Supremo, e, posteriormente, a investigação passou a alcançar justamente aqueles que participaram da produção e da circulação das informações. Isso exige ainda mais transparência e equilíbrio. Quanto maior o poder de quem está no centro de uma denúncia, maior deve ser o cuidado para que a investigação não produza a impressão de que o problema passou a ser quem revelou o fato, e não o próprio fato.
É perfeitamente possível investigar Cutrim e, ao mesmo tempo, investigar os carros oficiais. Uma coisa não impede a outra. Se os veículos foram utilizados dentro das regras, os documentos podem demonstrar isso. Se houve uso irregular, a apuração poderá apontar quem autorizou, quem utilizou e em quais circunstâncias. Essa seria uma resposta muito mais objetiva do que simplesmente chegar à pessoa que repassou a informação.
O que permanece sem explicação é por que, até agora, a fonte parece ter despertado mais interesse investigativo do que o próprio fato denunciado.
