Em artigo, Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos, analisa a disputa pelo Governo do Maranhão e afirma que Roberto Rocha tenta expor a estratégia eleitoral de Eduardo Braide diante da polarização entre lulismo e bolsonarismo.

Para o autor, o ex-prefeito busca ampliar seu espaço entre diferentes segmentos do eleitorado sem assumir publicamente uma identificação definitiva com o bolsonarismo. Leia o artigo na íntegra:
ROBERTO ROCHA TIRA BRAIDE DO ARMÁRIO DO BOLSONARISMO
Com Lula forte no Maranhão e a disputa pelo governo cada vez mais concentrada, ex-prefeito tenta conquistar a direita bolsonarista sem fechar a porta ao eleitor lulista; Roberto Rocha decidiu expor a contradição
Eduardo Braide quer uma coisa difícil de sustentar por muito tempo: conquistar o bolsonarismo sem se assumir bolsonarista.
Quer o voto da direita, suas lideranças, seus palanques e sua força eleitoral, principalmente onde precisa crescer no interior. Mas, ao mesmo tempo, continua cultivando a imagem do candidato independente, sem lado definido, distante da política tradicional.
Isso não é distração. É cálculo eleitoral.
Braide só não contava com a reação de quem também reivindica espaço e protagonismo nesse campo: Roberto Rocha.
A candidatura de Roberto ao governo pelo PRTB abriu uma guerra dentro da direita bolsonarista. O ex-senador passou a expor sua versão sobre as articulações que o tiraram do Novo e levaram Lahesio Bonfim para a chapa de Braide. Acusa o adversário de ter trabalhado nos bastidores para afastá-lo e desafia Braide a explicar como tudo foi construído.
Roberto sabe onde bater porque já esteve do outro lado da mesa.
Em 2020, o PSDB comandado por ele retirou Wellington do Curso da disputa pela Prefeitura de São Luís e apoiou Braide. O próprio Braide agradeceu publicamente a Roberto por uma aliança que dizia ter começado em 2018 e que deveria chegar a 2022. Hoje, Roberto diz que foi abandonado depois de cumprir sua parte. E Wellington, retirado daquela eleição, está justamente no grupo de Braide.
É esse histórico que dá peso à pancada.
Roberto não fala apenas como adversário. Fala como alguém que conhece por dentro as articulações que Braide prefere manter longe dos holofotes. Enquanto o ex-prefeito vende a imagem do “bom moço”, avesso à velha política, Roberto apresenta outro personagem: o que negocia na surdina, monta alianças, movimenta partidos e tenta remover obstáculos do caminho.
E quer discutir isso cara a cara.
Braide, até agora, tem evitado.
Não foi ao primeiro debate da Band. Roberto foi e o chamou de “fujão”. Na sexta-feira (14), Braide também faltou à entrevista individual no programa Ponto Final, da Mirante News.
É muita cadeira vazia para quem quer governar o Maranhão.
Mas a questão principal não é por que Roberto está atacando tanto. É entender por que esses ataques encurralam Braide.
A resposta está no eleitor.
Roberto Rocha não precisa esconder quem é. Reivindica sua história com Jair Bolsonaro, sua atuação como senador e sua relação com a família Bolsonaro. Quer ser reconhecido como o bolsonarista de carteirinha da eleição e desafia Braide a assumir a mesma identidade.
E não é por falta de afinidade de Braide com a direita. Sua formação e sua trajetória política sempre estiveram muito mais próximas desse campo do que do lulismo.
O problema é eleitoral.
Em julho, uma pesquisa Real Time Big Data colocou Lula com 60% das intenções de voto para presidente no Maranhão, contra 22% de Flávio Bolsonaro. É esse tamanho do eleitorado lulista que Braide enxerga quando evita vestir de vez a camisa do bolsonarismo.
E há uma razão ainda mais imediata.
A disputa pelo governo está cada vez mais concentrada entre Braide e Orleans Brandão. No levantamento Veritás divulgado na sexta-feira (14), Orleans apareceu com 47,5%, contra 39,1% de Braide.
Num eventual segundo turno entre os dois, Braide sabe que não poderá depender apenas do eleitor bolsonarista. Vai precisar disputar também uma parcela dos maranhenses que votam em Lula.
E quanto mais a eleição nacional se polariza entre lulismo e bolsonarismo, menor fica o espaço para Braide continuar escondendo de que lado está.
É por isso que a ambiguidade lhe interessa tanto.
Braide quer ser bolsonarista onde Bolsonaro dá voto e moderado onde Bolsonaro tira voto.
Também sabe que existem setores do PT dispostos a manter pontes políticas com sua candidatura. Em julho, uma agenda de um vice-presidente nacional petista com Braide provocou reação dentro do próprio partido, que precisou reafirmar publicamente sua posição eleitoral. Braide aposta justamente em não fechar essa porta, pensando também no que poderá acontecer num segundo turno.
Roberto Rocha está tentando acabar com essa comodidade.
Ao exigir que Braide assuma seu lado, coloca o adversário diante de uma escolha ruim: ou abraça publicamente o bolsonarismo e corre o risco de afastar o eleitor lulista de que poderá precisar depois, ou continua fugindo da definição e deixa Roberto perguntar por que tem vergonha do campo político que tenta representar.
É aí que Roberto começa, politicamente, a tirar Braide do armário do bolsonarismo.
Essa contradição ajuda também a explicar a ofensiva de Braide no sul do Maranhão. Ele sabe que precisa crescer numa região onde o bolsonarismo tem força e onde a vitrine construída em São Luís, sozinha, não basta.
Se suas pesquisas qualitativas estão captando o óbvio, já devem ter mostrado que a maquiagem da capital não serve como modelo para convencer o Maranhão inteiro.
Por isso, Braide busca novos redutos e adapta o discurso.
Nesta semana, em Imperatriz, prometeu transformar o Hospital da Região Tocantina em um grande hospital de urgência e emergência de porta aberta. Uma proposta feita sob medida para uma região que ele precisa conquistar.
Mas saúde de alta complexidade exige estrutura, equipes especializadas, retaguarda e organização de rede. E a pergunta é inevitável: se essa transformação é tão simples como parece no discurso, por que os cinco anos de Braide à frente de São Luís, com dois Socorrões sob responsabilidade municipal, não produziram ali aquilo que agora ele promete entregar em Imperatriz?
É o mesmo problema da propaganda de “São Luís modelo para o Brasil”. Houve manutenção de vias, reformas de escolas e unidades de saúde, mas manutenção não é transformação. E basta olhar para a crise do transporte coletivo, com greves, redução de linhas e bairros cobrando ônibus de volta, para perceber que a cidade real está muito longe daquela cuidadosamente enquadrada nas redes sociais. Muita maquiagem não transforma paliativo em solução.
Braide sabe que a eleição estadual é outro jogo.
Foi por ela que abriu mão da Prefeitura de São Luís e colocou praticamente todo o seu capital político na disputa pelo Palácio dos Leões. Uma derrota o deixaria sem mandato e sem um grupo político estadual consolidado capaz de amortecer o revés.
Ele jogou todas as fichas.
Por isso precisa do bolsonarista no sul, do conservador no interior, do moderado na capital e, se houver segundo turno, de uma parcela importante do eleitor de Lula.
O que ele não precisava era de Roberto Rocha dizendo em voz alta aquilo que sua estratégia depende de manter em silêncio.
Se Braide tiver o mínimo de respeito pelo eleitor maranhense, precisa sair do armário do bolsonarismo, assumir o lado que escolheu e deixar que cada um decida livremente em quem votar: se num representante do bolsonarismo ou num representante do campo de Lula no Maranhão.

