A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente neste domingo, abrindo uma nova etapa da disputa por cargos públicos no Brasil. A partir de agora, de acordo com as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), candidatos podem realizar comícios, atos de campanha e ações de divulgação no ambiente digital.

Também estão autorizadas as lives promovidas por candidatos e a divulgação de propaganda eleitoral pela internet. As campanhas poderão ainda utilizar rádio, televisão e veículos impressos dentro das normas previstas pela legislação eleitoral.
O início da campanha ocorre após o encerramento do prazo para definição das candidaturas. Os partidos tiveram cerca de cinco meses para escolher seus candidatos e formalizar alianças para a disputa deste ano.
A partir desta fase, o eleitor passa a ter contato mais intenso com propostas, discursos e estratégias dos candidatos. O período também representa uma oportunidade para que os eleitores comparem os postulantes e decidam quais nomes e projetos consideram mais adequados para representar seus interesses.
Esse processo, no entanto, ocorre em um cenário de distanciamento entre parte do eleitorado e os representantes eleitos. Pesquisa Datafolha divulgada em junho apontou que dois em cada três entrevistados não se lembravam em quem haviam votado para senador, deputado federal ou deputado estadual em 2022.
O levantamento mostrou ainda que 68% dos eleitores não conseguiam mencionar o nome de nenhum representante da Câmara dos Deputados. Entre os senadores, o desconhecimento era ainda maior: 75% não souberam citar sequer um nome.
Os números reforçam o desafio de aproximar a população das instituições políticas. Ao mesmo tempo, as eleições movimentam recursos expressivos. O Fundo Eleitoral destinado ao pleito de 2026 chega a R$ 4,9 bilhões.
Nesse contexto, a campanha deverá ser marcada por disputas políticas, polarização, presença intensa nas redes sociais e tentativa de candidatos com menor projeção de ampliar sua visibilidade.
Para o eleitor, a campanha representa o momento de avaliar não apenas os discursos dos candidatos, mas também suas posições diante de temas que afetam diretamente a população. Economia, segurança pública, educação, custo de vida, emprego, renda, assistência social, combate à discriminação e outras questões deverão ocupar espaço no debate eleitoral.
O voto, nesse cenário, representa uma das principais formas de participação política do cidadão. As escolhas feitas nas urnas em 4 de outubro terão consequências para os próximos anos e poderão influenciar políticas públicas e decisões que ultrapassem o período de um mandato.
Eleitor ainda pode mudar o cenário
A indefinição do eleitorado é um dos fatores que tornam a disputa de 2026 difícil de projetar. Pesquisas recentes apontam vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro em diferentes cenários, mas também mostram que uma parcela significativa dos eleitores ainda não transformou preferência, rejeição ou identificação política em uma decisão definitiva.
Na pesquisa Genial/Quaest citada na matéria, Lula aparece com 38% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 31%. Caiado e Renan Santos têm 4% cada, enquanto Zema e Augusto Cury aparecem com 2%.
Em um cenário de segundo turno apresentado pelo levantamento, Lula registra 43% e Flávio Bolsonaro, 40%, resultado considerado empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Outros levantamentos apresentam números diferentes. A pesquisa CNT/MDA registra Lula com 42,4% e Flávio Bolsonaro com 28,7% no primeiro turno. No segundo turno, os números são de 48% para Lula e 39,1% para Flávio.
Já o levantamento BTG/Nexus aponta 40% para Lula e 35% para Flávio no primeiro turno. No segundo, os percentuais são de 47% e 44%, respectivamente.
A diferença entre os levantamentos mostra que o cenário eleitoral ainda está sujeito a mudanças. Além disso, pesquisas estimuladas não necessariamente refletem uma decisão consolidada do eleitorado, especialmente quando há elevado número de pessoas que ainda não definiram espontaneamente seu voto.
A história recente das eleições brasileiras oferece exemplos de mudanças significativas durante as campanhas.
Em 1994, Lula iniciou a disputa em posição de destaque, mas o lançamento do Plano Real durante o governo de Itamar Franco alterou o cenário econômico e político. Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda e associado ao programa de estabilização, ganhou força e venceu a eleição no primeiro turno.
Em 2002, Ciro Gomes chegou a ameaçar José Serra na disputa pela segunda vaga no segundo turno. Com o avanço da campanha, porém, Serra recuperou espaço e acabou enfrentando Lula, que venceu a eleição.
Quatro anos depois, em 2006, Lula enfrentava os efeitos políticos do escândalo do mensalão. Geraldo Alckmin conseguiu levá-lo ao segundo turno, mas o resultado final foi diferente das expectativas de parte do cenário político: Lula foi reeleito e Alckmin recebeu menos votos no segundo turno do que havia obtido na primeira etapa.
A eleição de 2014 também foi marcada por fortes oscilações. Após a morte de Eduardo Campos, Marina Silva assumiu a candidatura do PSB e chegou a apresentar vantagem sobre Dilma Rousseff em simulações de segundo turno. Poucas semanas depois, o quadro havia mudado.
Em setembro daquele ano, Dilma aparecia com 36% das intenções de voto no primeiro turno, Marina com 33% e Aécio Neves com 15%. Na pesquisa espontânea, 29% dos eleitores ainda estavam indecisos. Aécio avançou, ultrapassou Marina e chegou ao segundo turno contra Dilma, que acabou sendo reeleita.
Em 2018, o atentado contra Jair Bolsonaro alterou a dinâmica de sua campanha e reduziu sua participação presencial. No mesmo período, Fernando Haddad assumiu a candidatura do PT após a definição da inelegibilidade de Lula. Em poucas semanas, o cenário se transformou e Bolsonaro venceu a eleição.
Em 2022, a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro já estava consolidada. Ainda assim, a disputa terminou com uma diferença pequena no segundo turno. Lula recebeu 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, uma diferença de 1,8 ponto percentual.
Economia e campanha podem alterar cenário
A eleição de 2026 também será influenciada por fatores que podem ganhar importância ao longo da campanha. Entre eles estão inflação, emprego, renda, juros e a percepção dos brasileiros sobre o custo de vida.
Eventuais escândalos envolvendo candidatos, familiares ou aliados também podem modificar a avaliação do eleitorado. O desempenho dos concorrentes nos debates e no horário eleitoral, assim como a atuação nas redes sociais, será outro componente relevante da disputa.
A influência de Donald Trump e das tarifas impostas pelos Estados Unidos também aparece entre os fatores externos capazes de interferir no ambiente político e econômico brasileiro.
Apesar das pesquisas, dos cálculos eleitorais e das estratégias das campanhas, o comportamento do eleitor continua sendo uma das principais variáveis da eleição.
Com o início oficial da campanha, candidatos terão semanas para apresentar propostas, disputar espaço e tentar conquistar eleitores. Ao público caberá acompanhar as promessas, confrontar discursos com trajetórias políticas e avaliar os nomes que estarão nas urnas.
