O Jornal Pequeno publica, em seu editorial de capa, deste domingo, 12, uma análise sobre o cenário político da disputa pelo Governo do Maranhão em 2026.
Sob o título “O Fantástico Mundo de Braide”, o texto aborda o posicionamento do ex-prefeito de São Luís Eduardo Braide (PSD) diante da polarização política nacional, questionando o discurso de neutralidade adotado pelo candidato após a definição de sua chapa.
Ao longo do editorial, o jornal argumenta que as alianças firmadas por Braide e os movimentos políticos que antecederam sua candidatura revelam uma escolha de campo político, ao mesmo tempo em que critica o que considera uma tentativa de desvincular essa decisão da polarização entre lulismo e bolsonarismo.
O texto também apresenta reflexões sobre estratégia eleitoral, coerência política e os impactos dessas escolhas para o eleitor maranhense. Leia o editorial na íntegra:
O Fantástico Mundo de Braide
Cortejado pelos dois lados da política, o candidato escolheu um – e agora quer convencer o eleitor de que não escolheu nenhum
Quem cresceu nos anos 1990 talvez se lembre de um desenho animado em que um menino, sempre que a vida real apertava, mudava-se para um mundo inventado por ele mesmo. Lá dentro, tudo se ajeitava do jeito dele. Na televisão, era encantador. Pois esse mundo, na disputa pelo governo do Maranhão em 2026, virou método de campanha.
Primeiro, os fatos. Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís, é candidato ao governo do Estado. Para a vaga de vice, escolheu Elaine Carneiro, apontada pela cobertura política local como bolsonarista militante. Para o Senado, indicou Lahésio Bonfim, situado pela mesma cobertura na extrema direita – escolha que, segundo analistas, foi orientada por pesquisas de intenção de voto. Na sequência, o deputado federal Allan Garcês aderiu à chapa dizendo, com todas as letras, que a aliança fortalece a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro no Maranhão. O outro nome ao Senado, André Fufuca, ex-ministro do governo Lula, não tem conseguido equilibrar essa balança, como registrou a imprensa.
Quando os jornais fizeram a conta óbvia e carimbaram a chapa como bolsonarista, Braide se incomodou. Foi ao jornal O Globo dizer que há assuntos mais urgentes do que direita e esquerda, e que a campanha no Maranhão deve correr longe da polarização nacional e que o povo quer saber apenas quem está do lado dele.
O detalhe que derruba a fantasia: Acontece que há um capítulo dessa história que o discurso da neutralidade prefere esquecer. Durante meses, Braide foi cortejado também pelo outro lado. O grupo do ex-governador Flávio Dino – hoje ministro do Supremo Tribunal Federal e nome do campo do presidente Lula – trabalhou abertamente por uma aliança com o ex-prefeito, mesmo tendo o vice-governador Felipe Camarão (PT) como candidato próprio. O noticiário local registrou o namoro em detalhes: Braide teria interesse no tempo de televisão do PT, mas temia o desgaste de aparecer ligado ao partido e ao presidente; condicionou a resposta, dizia-se, a pesquisas que medissem o custo do abraço; e só aceitaria os dinistas sem declaração pública de aliança. Do outro lado, noticiou-se que Lula vetou a entrega do PT a Braide, por considerá-lo de direita e próximo do bolsonarismo. Nesta semana, ao anunciar Lahésio Bonfim, Braide fechou a porta de vez: disse não aos dinistas e ao PT, que agora se reagrupam em torno de Camarão.
Repare no que isso significa. O candidato tinha os dois polos à mesa. Pesou um, pesou o outro – na balança das pesquisas, não das ideias –, recusou um e abraçou o outro. Quem recusa um polo e adere ao outro não está acima da polarização: está dentro dela, e de um lado só. E o episódio revela algo maior, porque o método foi o mesmo nas duas pontas: do PT, ele queria o tempo de TV sem a foto ao lado de Lula; do bolsonarismo, quer os votos sem o carimbo. Muda o lado, não muda o padrão – ficar com o bônus e devolver o ônus.
E há um jeito fácil de testar a sinceridade do “rótulo não importa”: se não importa, por que incomoda tanto? Ninguém se irrita com etiqueta vazia. A gente se irrita com a etiqueta que diz a verdade que não convém. O incômodo do candidato, registrado pela imprensa, é a confissão involuntária de que a chapa significa, sim, alguma coisa – e ele sabe o quê.
Que fique claro: o problema não é ter lado. Todo político tem, e alianças largas são o feijão com arroz da política brasileira. O problema é negar o lado que se escolheu e cobrar do eleitor que finja não ver. A crítica não é à aliança; é à negação dela.
E o que se passa na cabeça do candidato? Há três hipóteses.
Ninguém tem acesso à cabeça de ninguém – este editorial analisa atos públicos e declarações, não faz laudo psicológico de político. Mas as explicações possíveis para tamanha contradição são três. Vale examiná-las uma a uma, dando ao candidato, em cada uma, o benefício da dúvida.
A primeira é que ele sabe exatamente o que faz. É a hipótese do cálculo frio. O candidato conhece o mapa verdadeiro da própria candidatura e entrega ao eleitor um mapa falso, porque o falso rende mais voto. Se é isso, a falha é de caráter: trata-se o eleitor como massa de manobra. O filósofo americano Harry Frankfurt escreveu um livro famoso sobre um tipo pior que o mentiroso: o mentiroso ao menos respeita a verdade a seu modo – precisa conhecê-la para escondê-la –, enquanto o outro fala qualquer coisa que funcione, sem se importar se é verdade ou não. Frases como “o que importa é estar do lado do povo” pertencem a essa segunda família: bonitas, inatacáveis e vazias, servem a qualquer político, de qualquer lado, em qualquer época.
A segunda é que ele se convenceu do que lhe convém. É a hipótese mais provável, porque é a mais humana. Ninguém gosta de se ver como vilão da própria história, e a psicologia demonstrou há décadas que quando aquilo que fazemos briga com aquilo que acreditamos, quase nunca mudamos o que fazemos – mudamos o que acreditamos. Braide talvez creia, com sinceridade aparente, que eleição estadual é sobre gestão, e não sobre ideologia. Mas repare como essa crença é seletiva. Ela não o impediu de esperar pesquisas para medir o desgaste de cada aliança, de temer o rótulo de um lado e de aceitar o rótulo do outro. Convicção que sempre aponta para onde há mais voto não é convicção – é conveniência com crachá de convicção. E, para o eleitor, o resultado é idêntico ao da primeira hipótese; ou seja, a informação continua sonegada. Com um agravante: quem se convenceu de boa-fé nem sente que deve explicação a alguém.
Na terceira hipóteses, ele acredita mesmo que dá para viver fora do mundo. É a hipótese mais rara – e a pior de todas, embora pareça a mais inocente. Suponha que o candidato creia sinceramente que é possível montar palanque com um dos lados da guerra política nacional e, ainda assim, viver fora dela; que ideologia é detalhe; que o mundo à sua volta não é bem aquilo que todos estão vendo. A filósofa Hannah Arendt, estudando os papéis secretos da Guerra do Vietnã, deixou um aviso que serve aqui: o governante que engana os outros ainda enxerga a verdade e pode corrigir o rumo quando quiser; o que engana a si mesmo quebrou a própria bússola – não corrige o rumo porque não vê que errou. E o sociólogo Max Weber definiu o requisito mínimo do ofício: política é senso de realidade e responsabilidade pelas consequências. Governar é lidar com o mundo real – folha de pagamento, hospital lotado, estrada esburacada, conflito de todo dia. Quem acredita sinceramente que pode se mudar do mundo não deveria receber as chaves dele.
De qualquer forma, nas três hipóteses, quem perde é o eleitor. Escolha o leitor a explicação que preferir – este editorial não precisa escolher. Na primeira hipótese, o eleitor é enganado. Na segunda, é enganado por alguém que se enganou primeiro. Na terceira, é governado por quem não enxerga o chão em que pisa. Muda apenas o endereço do problema: o caráter, o autoengano ou o senso de realidade. E note que chegamos até aqui concedendo ao candidato, a cada passo, a presunção de inocência. Ela não o salvou – apenas mudou a acusação de lugar.
Urna não é tribunal. No júri, a dúvida beneficia o réu, porque quem corre o risco da pena é ele. Na eleição, quem corre o risco é o povo – os quatro anos são nossos. Na dúvida sobre quem é o candidato, o eleitor prudente decide a favor de si mesmo.
No desenho animado, a mudança para o mundo da fantasia era de graça, e a plateia voltava para a realidade quando o episódio acabava. Na eleição, a passagem custa quatro anos, sem volta no meio do caminho. O Maranhão inteiro está sendo convidado a se mudar para o Mundo de Braide – um lugar onde chapa não tem cor, palanque não tem lado e rótulo é sempre injustiça. A boa notícia é que o mundo real continua aqui fora, com registro público, datado e verificável de quem foi chamado ao palanque, por quem, para quê – e de quem foi dispensado dele. Em outubro, saberemos em qual dos dois mundos o eleitor maranhense prefere morar.

