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A revista Piauí publicou uma extensa reportagem investigativa sobre a trajetória da influenciadora Virginia Fonseca, abordando desde sua ascensão meteórica nas redes sociais até o avanço de apurações envolvendo movimentações financeiras, contratos publicitários com casas de apostas e os bastidores da construção do império empresarial da influenciadora.

Intitulada “A Tigresa dos Algoritmos”, a matéria assinada pelos jornalistas João Batista Jr. e Alessandra Medina reúne documentos, relatos, dados financeiros, informações da CPI das Bets, relatórios do Coaf e detalhes inéditos sobre empresas ligadas à influenciadora.

Segundo a publicação, Virginia passou do status de fenômeno digital, com dezenas de milhões de seguidores e faturamento bilionário, para o centro de questionamentos envolvendo publicidade de apostas online, operações empresariais consideradas atípicas pelo sistema financeiro e investigações conduzidas pela Polícia Federal.

VEJA A MATÉRIA NA ÍNTEGRA:

A chegada da influenciadora Virginia Fonseca ao Senado Federal foi tumultuada. De braços dados com o então marido Zé Felipe, filho do cantor Leonardo, e acompanhada do advogado criminalista Michel Saliba, ela precisou driblar a multidão de jornalistas e fãs que se acotovelavam nos espaços próximos à sala de audiência da CPI das Bets. Como se tivesse saí­do para um passeio no parque, Virginia estava de cabelos soltos e óculos, sem maquiagem, e vestia um moletom preto com a foto da filha Maria Flor estampada na blusa, junto com a frase em linguagem infantil “Floflo biuta”.

Tudo dava uma aura de informalidade à sua presença no Congresso Nacional, depois de convocada pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) para que explicasse o seu papel na divulgação de apostas online. Apesar do estilo casual da influenciadora na CPI, ela e sua família sabiam que o assunto era sério. Era maio do ano passado. O sogro Leonardo havia telefonado para o senador Jorge Kajuru pedindo que pegassem leve com a nora. Mas não só ele. “Chegou aos meus ouvidos que Leonardo poderia querer falar comigo”, conta Thronicke, que foi relatora da CPI. “Disse para ele não perder tempo, porque eu não ia atender.” Virginia chegou munida de um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, que lhe dava o direito de não responder perguntas que pudessem incriminá-la.

Sua convocação para comparecer à CPI ocorreu pouco antes da revelação publicada pela piauí de que o contrato da influenciadora com a Esportes da Sorte previa o chamado “cachê da desgraça alheia” – ela recebia 30% do montante que os apostadores perdiam no jogo. Em razão disso, o “cachê da desgraça alheia” tornou-se um dos assuntos da CPI. Ao depor, Virginia disse não saber da epidemia de dependência e endividamento provocada pelas bets no Brasil e negou lucrar com a má sorte dos seguidores-apostadores. “Nunca recebi 1 real a mais do que o contrato de publicidade que fiz por dezoito meses”, declarou. “Era um valor fixo. Se eu dobrasse o lucro, eu receberia 30% a mais da empresa, mas isso não chegou a acontecer.” Como as casas de apostas sempre lucram com a perda dos apostadores, a explicação de Virginia parecia apenas um jogo de palavras.

Na CPI, tão à vontade quanto em suas lives da Wepink, a marca de cosméticos da qual é sócia, Virginia cativou os congressistas. “[Ela é] um fenômeno da internet. Conheço na medula, na essência”, disse o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) durante a audiência, que ainda acontecia quando o senador Cleitinho (Republicanos-MG) pediu para gravar um vídeo com a influenciadora para enviar à sua família.

A carreira de Virginia nas bets tem sido exitosa. O primeiro vídeo que postou no Instagram promovendo a Esportes da Sorte, da qual era contratada, atraiu 120 mil apostadores em janeiro de 2023. No ano seguinte, ela mudou de casa de apostas. Foi contratada pela Blaze. Depois de comparecer à CPI, Virginia resolveu adotar uma medida: deixou de promover links de tigrinhos e afins. Mas a providência talvez tenha sido mais cosmética do que efetiva. Afinal, ela continua divulgando “apostas esportivas” de bets, que contam com centenas de joguinhos de cassino.

Envolvida por grande expectativa quando foi criada em novembro de 2024, a CPI das Bets terminou em 12 de junho de 2025 com um resultado frustrante. Pela primeira vez na última década, o relatório final de uma CPI foi rejeitado no Senado, depois da ofensiva do lobby das bets. Com 541 páginas, o parecer da relatora pedia o indiciamento de dezesseis pessoas, entre elas, Virginia Fonseca. Havia, de fato, muito a apurar.

Durante os sete meses de duração da CPI, os parlamentares examinaram informações sensíveis e esclarecedoras, como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A piauí também examinou os RIFs, que vinham sendo mantidos em sigilo, e constatou que as movimentações bancárias da influenciadora levantam uma série de questionamentos. Em razão do conteúdo dos RIFs, Virginia, embora tenha se livrado da CPI, passou a ser investigada pela Polícia Federal. A investigação se destina a apurar a legalidade das operações financeiras da influenciadora e suas empresas, bem como a origem dos recursos movimentados, a eventual prática de crimes financeiros, fiscais e de lavagem de dinheiro.

Chama a atenção o RIF 125224, que traz uma comunicação do Banco Santander ao Coaf a respeito de transações suspeitas na conta da Talismã Digital, a empresa de Virginia e Zé Felipe que atuava com mídias digitais. Entre março e setembro de 2024, a Talismã Digital recebeu 22,4 milhões de reais. Desse montante, 21,4 milhões foram provenientes de 44 transações feitas via Pix, e 1 milhão, de 18 transferências via TED. A suspeita gira em torno do principal depositante do dinheiro, a AMP Pay Marketing e Negócios. A empresa transferiu 17,7 milhões de reais por meio de cinco remessas via Pix. O Santander preocupou-se porque, mesmo com essa transferência fenomenal, a AMP Pay está registrada na categoria Simples Nacional, o regime tributário ao qual têm direito apenas os negócios que faturam até 4,8 milhões de reais por ano, ou 400 mil reais por mês, em média. Outro detalhe: além de aparentar não ter “capacidade financeira” para movimentar tal volume, a AMP Pay está localizada em um box comercial no Centro de Itajaí, no interior de Santa Catarina.

Outro RIF traz informações sobre a Wpink Suplementos Nutricionais, que vende whey protein e creatina, empresa da qual Virginia é sócia. Em 18 de março de 2025, o Mercado Pago Instituição de Pagamento comunicou o Coaf sobre operações financeiras realizadas entre 2 de janeiro e 13 de março daquele mesmo ano. Nesse período, os créditos na conta da Wpink somaram 43,6 milhões de reais, os débitos chegaram a 43,5 milhões de reais. O RIF ressalta que, aparentemente, o montante não condiz com o faturamento mensal documentado pela empresa. Por isso, as transações foram enquadradas como “atípicas”.

O Coaf também recebeu do Banco Itaú alertas de movimentações financeiras suspeitas por parte da Savi Cosméticos S.A. (a razão social da Wepink), cujo faturamento anual declarado ao Banco Central é de 75 milhões de reais. No dia 28 de maio de 2024, o Itaú informou sobre um total de 190 transações, realizadas entre 21 de novembro de 2023 a 21 de maio de 2024, somando 502 mil reais, a partir de depósitos feitos em caixas eletrônicos de variadas agências bancárias. O recebimento em espécie é usual no ramo em que a Wepink atua. Mas, para o sistema financeiro, a maneira fragmentada de receber recursos gera suspeita porque pode disfarçar a movimentação e o faturamento da empresa, bem como esconder eventual origem ilícita do dinheiro.

Procurada pela piauí, Virginia escalou seus advogados para explicar as operações. Sobre o alerta emitido pelo Santander a respeito dos pagamentos da AMP Pay para a Talismã Digital, o advogado Felipe dos Santos de Paula disse que as transações que somaram 17,7 milhões de reais se referem ao pagamento de um cachê por “campanhas publicitárias devidamente contratadas”. Felipe de Paula não deu maiores detalhes sobre o serviço prestado, nem comentou sobre as dúvidas a respeito da “capacidade financeira” de uma empresa localizada num box comercial no interior de Santa Catarina. Disse, porém, que “todas as operações foram regularmente declaradas perante os órgãos fiscais competentes, com emissão das respectivas notas fiscais”.

Com relação ao alerta do Mercado Pago, que levantou a suspeita de que a movimentação financeira da Wpink Suplementos Nutricionais não condiz com o faturamento mensal da empresa, o advogado Dalmo Jacob do Amaral Jr. – que atende à Wpink Suplementos e a Wepink Cosméticos – disse, sem responder exatamente à pergunta: “A empresa utiliza de forma esporádica o mecanismo de antecipação de recebíveis de cartão de crédito, prática lícita e amplamente adotada no mercado.”

Quanto às suspeitas comunicadas pelo Itaú em relação aos pagamentos fracionados em caixas eletrônicos, Amaral Jr. disse que “os depósitos mencionados correspondem à parte das receitas de vendas realizadas diariamente nos quiosques próprios [da empresa], que possuía 11 unidades em 2023 e 13 unidades em 2024”. Por isso, segundo ele, há tantos depósitos fracionados com dinheiro em espécie. Os quiosques de venda dos produtos da Wepink ficam sobretudo em shop­pings, espalhados pelo país, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

A Wepink é o principal negócio de Virginia Fonseca. Mas a história da empresa de cosméticos não se inicia com ela – e sua origem é carregada de suspeitas. Começa com o casal paulista Samara Cahanovich Martins e Thiago Stabile, que gosta de repetir para a imprensa sua história de sucesso.

Certo dia, Stabile encontrou sua mulher chorando porque, desempregada e perto de fazer 28 anos, ela estava sem dinheiro para fazer a extensão de cílios com a qual tanto sonhava. Ele sugeriu que Martins fizesse um curso de aperfeiçoamento em design de sobrancelhas, o que, feitas as contas, permitiria a ela faturar cerca de 7 mil reais por mês. Martins gostou da ideia e foi em frente.

Depois de formada, conheceu, enquanto treinava na academia, Aline Mineiro, uma das panicats – como eram chamadas as assistentes de palco do programa Pânico na tv – e Fernanda Lacerda, que interpretava no mesmo programa a Mendigata, uma moradora de rua sexy. Martins se ofereceu para fazer gratuitamente os cílios das duas, que a incentivaram a criar um perfil no Instagram. Foi então que Martins e Stabile deram um nome fantasia para o negócio: Pink Lash. Em 2017, abriram também um salão de estética especializado em design de sobrancelhas e cílios. O salão ficava no bairro do Cambuci, em São Paulo.

O negócio foi um sucesso. Em 2020, entre lojas próprias e franquias, a Pink Lash já contava com 104 unidades. Para promover ainda mais a empresa, foram contratados 52 influenciadores. Virginia não estava entre eles. A aproximação dela com os empresários, entretanto, não demoraria a acontecer. Ela estava entre as estrelas do mundo digital que compareceram à grande festa realizada em outubro do mesmo ano na inauguração de uma nova unidade da Pink Lash na capital paulista.

Essa é a versão oficial da história. Há omissões importantes.

No negócio da Pink Lash, havia outra sócia, além do casal Martins-Stabile: a enfermeira Karen de Moura Tanaka Mori, conhecida como Japa do PCC, como noticiou o site Agência Pública. Ela é a viúva de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, que foi executado em 2018 quando respondia pela organização criminosa em Santos. Sua morte foi um acerto de contas dentro do PCC e chamou a atenção da imprensa: uma semana antes, Cabelo Duro tinha assassinado dois colegas da facção. Os episódios sangrentos tornaram Karen Mori conhecida no país.

Mais que sócia, Mori foi a fonte de todo o capital inicial da Pink Lash. Em entrevista à piauí, ela disse ter investido 800 mil reais na abertura da primeira loja da rede, no bairro Cambuci, em 2017. O dinheiro era proveniente da venda de um carro do marido, que ainda estava vivo. Quando indagada se a Pink Lash nasceu com o dinheiro de uma liderança da maior facção criminosa do Brasil, Mori não titubeia: “Sim”, responde. “Eu era uma cliente da Samara [Martins], ela fazia os meus cílios. E, em determinado momento, propus fazermos essa sociedade, sendo 50% para mim e 50% para eles.”

Na divisão de tarefas, coube a Mori cuidar das lojas e desenvolver os produtos, como um removedor de cílios. Martins e Stabile ficaram encarregados do marketing e do contato com as influenciadoras. A parceria comercial do casal Martins-Stabile com Mori evoluiu para uma amizade. “Os dois frequentaram a nossa casa, eram amigos do meu marido e sabiam exatamente o que ele fazia”, diz Mori. Ainda em 2017, para a inauguração de outra loja da Pink Lash, no bairro do Tatuapé, Cabelo Duro emprestou a sua Ferrari para ficar estacionada na porta, como forma de atrair a atenção de clientes.

Como sócia, Mori frequentou eventos oficiais da Pink Lash, inclusive uma feira de beleza em que os garotos-propaganda da empresa foram Belo e Gracyanne Barbosa, em junho de 2019, em São Paulo. Há registros de Virginia Fonseca ao lado de Samara Martins e de Karen Mori em um evento da Pink Lash também em 2019. “Eu acho que encontrei a Virginia algumas vezes.”

A influenciadora conheceu os serviços da Pink Lash pelas redes sociais e foi até lá fazer os cílios em troca de postagens. Martins ficou amiga dela e lhe mandava presentes com frequência. “Em 2020, quando a Virginia se mudou para Goiânia, enviamos uma poltrona rosa de presente. Também pagávamos passagem de avião para a nossa melhor funcionária ir fazer os cílios dela”, recorda Mori.

A relação entre Mori e o casal Martins-Stabile foi se desgastando pouco a pouco, até ela ser escanteada de vez, quando a dupla se associou ao chinês Chaopeng Tan para lançar a Wepink, a marca de cosméticos inaugurada em 2021 cuja linha de perfumes é inspirada em fragrâncias famosas de marcas como Lancôme e Givenchy. “A Samara e o Stabile entraram com o marketing, a Virginia, com a divulgação dos produtos através de suas redes sociais, e o chinês, com o dinheiro”, conta Mori. Cada um tem 33,3% de participação no negócio. Em suas redes sociais, Virginia disse que Chaopeng Tan era dono da rede instagramável de cafés We Coffee, fundada em São Paulo. Mas, de acordo com os dados da Junta Comercial, Tan nunca teve participação nessa rede. “Não quero divulgar nada sobre isso”, disse Tan por telefone, quando contatado pela piauí.

A Pink Lash e a Wepink chegaram a coexistir, até que, no fim de 2021 Martins e Stabile procuraram Mori para uma conversa definitiva. “Eles me falaram assim: ‘Ou você vende a sua parte para a gente ou decretamos falência.’ Eu fui usada de escada, me dispensaram quando os chineses apareceram.” Ficou acertado que Mori receberia 10 milhões de reais. “A Samara e o Stabile estavam usando meu apartamento, então eles compraram o imóvel por 1 milhão de reais e me pagaram integralmente em espécie”, ela conta. Na matrícula do imóvel, não constam os nomes nem de Mori nem de Martins ou Stabile como proprietários antigos ou atuais. Toda a transação foi feita por empresas que não têm ligação documentada com nenhum dos três.

Mori enviou à piauí fotos que afirma serem de Samara Martins nesse apartamento, onde morou com Cabelo Duro. Ela diz que, no começo de 2024, recebeu 1 milhão de reais em espécie como primeiro pagamento pela venda de sua sociedade na Pink Lash por 10 milhões. “Poucos dias depois, a polícia entrou em casa, e eu fui presa por lavagem de dinheiro e associação ao crime por terem encontrado dinheiro vivo”, diz. Os policiais encontraram 1 milhão de reais e 50 mil dólares em espécie. Hoje, enquanto aguarda julgamento, Mori usa tornozeleira eletrônica. Ela acredita que foi denunciada pelos ex-sócios.

O primeiro produto desenvolvido pela Wepink destinava-se à hidratação do rosto e ao tratamento de espinhas, depois que Virginia apareceu com acne durante sua primeira gravidez. O segundo foi um gloss. O terceiro, um reparador capilar. O investimento inicial na empresa foi de 1 milhão de reais. Desse montante, 40 mil reais foram gastos na festa de lançamento. “Em três horas, vendemos 30 mil unidades”, contou Stabile em um podcast.

O faturamento de 2022 foi espantoso para uma marca recém-criada. “Finalizamos 2022 com 168 milhões faturados na @wepink.br! Só tenho a agradecer, primeiramente a Deus e a vocês! Sem palavras e muita gratidão no coração! 1 ano e 3 meses de empresa, é surreal! E agradecer também aos meus sócios e equipe que se dedicam 24 horas”, escreveu Virginia em uma postagem. “Vocês” são as seguidoras-consumidoras. No ano seguinte, já com mais de cem produtos lançados, de protetor solar a perfume, o faturamento chegou a 325 milhões de reais. Em 2024, cerca de 750 milhões de reais. Em 2025, novo recorde: 1,3 bilhão de reais. (A título de comparação, o Grupo Boticário faturou 38,1 bilhões de reais em 2025, sendo a rede de beleza com mais lojas no mundo: 3.898 pontos de venda, distribuídos por mais de 1,6 mil cidades brasileiras e 16 países.)

A Wepink foi pioneira no país em fazer vendas durante lives nas redes sociais. Virginia entra ao vivo em seu perfil do Instagram oferecendo descontos de 70%. O site da empresa costuma travar de tanto acesso. A empresa já chegou a faturar, em apenas uma hora, 15 milhões de reais em vendas. Stabile explica o sucesso comercial pela capacidade de Virginia de convencer sua audiência a consumir. “Ela está 100% voltada para a Wepink”, disse ele ao site Poder360.

O crescimento da Wepink foi proporcional aos problemas de gestão e de credibilidade, com descumprimento de prazo de entrega, envio de pedidos incompletos e demora excessiva para estorno das devoluções. Em novembro passado, a empresa se comprometeu a pagar 5 milhões de reais por dano moral coletivo, depois de assinar um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público do Estado de Goiás. Foi o resultado de uma ação civil pública que teve como base 120 mil reclamações protocoladas no Procon goiano e no Reclame Aqui. No mês seguinte, mais uma penalidade: depois de receber 5 555 queixas, o Procon de São Paulo aplicou uma multa de 1,5 milhão de reais à Wepink. O Reclame Aqui informou à piauí que o número de reclamações contra a empresa chegou a 90 423 em 2024, caiu para 64 631 em 2025, e soma 12 630 casos entre janeiro e abril deste ano. A Wepink solucionou 98% dos problemas.

A empresa de cosméticos também falha no armazenamento dos produtos. Em abril deste ano, a Vigilância Sanitária de Goiás interditou um galpão logístico da Wepink em Anápolis, de 3,3 mil m². Havia mofo, sujeira e controle de temperatura irregular. Em comunicado à imprensa, a Wepink informou que se tratava de um galpão terceirizado, chamado tp Distribuições de Cosméticos. Porém, não parece tão terceirizado assim: o galpão pertence ao próprio Thiago Stabile e a Peishan Zhen, que tem como um dos de seus endereços o mesmo de Chao­peng Tan, em São Paulo. Zhen também é sócia de Igor Cahanovich Soares, irmão caçula de Samara Martins, em mais dez franquias da Wepink. Em março de 2023, Igor Soares foi preso em Minas Gerais, por porte ilegal de arma. Procurada pela piauí, Zhen não quis se manifestar.

A Wepink informa em seu site ter 298 lojas próprias, sem revelar o número de franqueados. Sabe-se apenas que são muitos, buscando atingir tanto o público mais rico como os menos abastados, razão pela qual instalou quiosques em bairros como Vila Sônia, em São Paulo. Também não existem dados públicos sobre quem são os donos das lojas franqueadas. Mas é possível rastrear alguns. O dono da unidade do Shopping Morumbi, em São Paulo, se chama Alexandre Marcus de Godoy, tem 32 anos e é sócio, entre outras empresas, de duas casas de apostas online (Kings Bet e Aposta Pix, nenhuma das duas regulamentadas para operar no Brasil), de uma operadora de criptomoeda (Platinum Criptomoedas Corretora de Criptoativos) e de uma casa funerária (Benttus Funerária). Numa visita ao quiosque do Shopping Morumbi, a reportagem da piauí foi informada pela gerente que Alexandre Godoy não era mais o dono da franquia – ela se recusou a dizer quem seria o proprietário atual. No site da Junta Comercial de São Paulo, ele segue como proprietário da unidade.

Apesar das numerosas lojas físicas, o principal meio de vendas da Wepink é o e-commerce, no site próprio, com os links postados diversas vezes ao dia por Virginia em sua rede social. Stabile diz que o site representa 98% do faturamento da empresa. De acordo com dados ofi



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