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O Brasil segue enfrentando um processo de diminuição de suas áreas cobertas por água. Dados divulgados pelo MapBiomas Água mostram que, em 2025, 45% dos municípios brasileiros apresentaram superfície hídrica inferior à média registrada ao longo das últimas quatro décadas.

O levantamento também revela que o país perdeu, desde 1985, uma extensão de água superior à área total do estado de Sergipe.

Produzido com base em imagens de satélite e sistemas de inteligência artificial, o monitoramento acompanha mensalmente a evolução da superfície de água em todo o território nacional desde 1985.

Os resultados mais recentes reforçam uma tendência de longo prazo marcada pela redução de rios, lagos, áreas alagadas e outros ambientes aquáticos naturais.

Especialistas apontam que o fenômeno é consequência de diversos fatores combinados, incluindo mudanças climáticas, desmatamento, alterações no uso da terra, aumento da frequência de eventos extremos e transformações nos regimes de chuva.

Embora o estudo não avalie diretamente o volume de água disponível nem sua qualidade, a redução da superfície hídrica é considerada um importante indicador dos impactos ambientais que podem afetar abastecimento urbano, geração de energia, agricultura, indústria e atividades econômicas dependentes dos recursos hídricos.

Municípios com maiores perdas

Entre os 2.511 municípios que registraram superfície de água abaixo da média histórica em 2025, destacam-se localidades situadas principalmente nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Corumbá (MS) apresentou a maior perda absoluta, com redução de 474 mil hectares, equivalente a 56,7% de sua área média coberta por água. Em seguida aparecem Cáceres (MT), com perda de 189 mil hectares, e Poconé (MT), com redução de 103 mil hectares.

Também figuram entre os municípios mais afetados Aquidauana (MS), Barcelos (AM), Rorainópolis (RR), Pimenteiras do Oeste (RO), Chaves (PA), Barão de Melgaço (MT), Santo Antônio de Leverger (MT), Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), Caracaraí (RR), Alto Alegre dos Parecis (RO), Amapá (AP) e Tartarugalzinho (AP).

Grande parte dessas perdas está associada ao Pantanal e à Região Hidrográfica do Paraguai. Em 2025, essa região registrou queda de 53,8% em relação à média histórica, o equivalente a 877 mil hectares de superfície de água desaparecidos.

Crescimento das áreas artificiais

O estudo diferencia dois tipos de ambientes aquáticos: os naturais, formados por rios, lagos e áreas alagadas, e os artificiais, compostos por represas, reservatórios e outras estruturas construídas pelo ser humano.

Atualmente, cerca de 76,7% da água mapeada no Brasil está em ambientes naturais, enquanto 23,3% corresponde a reservatórios artificiais. No entanto, a evolução das duas categorias ao longo dos últimos 40 anos revela tendências opostas.

Desde 1985, os corpos hídricos artificiais cresceram aproximadamente 69%, incorporando cerca de 1,7 milhão de hectares. Já os ambientes naturais perderam 3,2 milhões de hectares, uma redução de 19%.

Essa transformação é especialmente evidente em alguns biomas. No Cerrado, mais da metade da superfície de água observada atualmente está associada a reservatórios hidrelétricos. Na Mata Atlântica, a maior área absoluta de água artificial do país soma aproximadamente 1,3 milhão de hectares.

A Caatinga apresenta a maior proporção de água armazenada em estruturas artificiais, representando 78% da superfície hídrica do bioma. No Pampa, por outro lado, as águas naturais ainda predominam, respondendo por quase 90% da área total.

No Pantanal, mais de 99% da água mapeada continua sendo de origem natural, o que torna o bioma altamente dependente dos ciclos de chuva e das cheias dos rios.

Quatro décadas de redução contínua

Os dados históricos mostram uma queda gradual da superfície média de água no Brasil ao longo dos últimos 40 anos.

Entre 1985 e 1994, o país possuía em média 19,86 milhões de hectares cobertos por água. Entre 1995 e 2004, esse valor caiu para 18,71 milhões de hectares. Na década seguinte, entre 2005 e 2014, a média ficou em 18,16 milhões de hectares. Já entre 2015 e 2024, atingiu 17,28 milhões de hectares.

A comparação entre o primeiro e o último período analisado indica uma perda acumulada de 2,58 milhões de hectares de superfície hídrica.

Em 2025, houve uma recuperação parcial. O país registrou 18,2 milhões de hectares cobertos por água, resultado 5,3% superior ao observado em 2024. Apesar disso, o número permanece abaixo da média histórica nacional, estimada em 18,5 milhões de hectares.

Segundo os pesquisadores do MapBiomas, um único ano de recuperação não é suficiente para reverter a tendência observada nas últimas décadas.

Mudanças climáticas e desmatamento influenciam cenário

Os pesquisadores destacam que diversos fatores contribuem para a redução da água superficial no país.

Entre eles está o fenômeno El Niño, responsável pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico e por alterações nos padrões de chuva em diferentes regiões do planeta. No Brasil, seus efeitos costumam reduzir as precipitações em áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O aquecimento global também desempenha papel importante ao elevar as temperaturas médias e intensificar a evaporação da água presente em rios, lagos, solos e vegetação.

Outro fator relevante é o desmatamento. A remoção da cobertura vegetal reduz a umidade liberada para a atmosfera e compromete a formação de chuvas. Além disso, queimadas, abertura de áreas e movimentação do solo alteram o funcionamento natural dos cursos d’água.

Pantanal enfrenta situação mais crítica

Entre todos os biomas brasileiros, o Pantanal registrou o pior desempenho em 2025. A superfície de água ficou 56% abaixo da média histórica e permaneceu abaixo dos níveis esperados durante todos os meses do ano.

O resultado ocorre após uma sequência de eventos extremos. Em 2024, o Brasil enfrentou a seca mais severa já registrada pelos sistemas nacionais de monitoramento. No Pantanal, a combinação de temperaturas elevadas e escassez de chuvas favoreceu incêndios de grandes proporções.

Embora o bioma tenha apresentado crescimento de 34% na superfície de água em comparação com 2024, o total registrado em 2025, de 679 mil hectares, ainda permanece muito distante da média histórica de 1,56 milhão de hectares.

Pesquisadores observam que a dinâmica hidrológica da região vem se alterando significativamente. Enquanto a década de 1980 foi marcada por grandes enchentes, os últimos anos têm sido caracterizados por períodos prolongados de estiagem.

Amazônia apresenta recuperação

Em contraste com o cenário observado no Pantanal, a Amazônia registrou recuperação em 2025 após enfrentar dois anos consecutivos de seca intensa.

A região terminou o ano com superfície de água 2,6% acima da média histórica e permaneceu abaixo desse patamar em apenas dois meses.

O Pará apresentou o maior ganho de área coberta por água do país, com acréscimo de 142 mil hectares em relação à média histórica. O Amazonas também registrou crescimento expressivo, somando 87 mil hectares adicionais.

A Amazônia concentra aproximadamente 61,4% de toda a superfície de água do Brasil, equivalente a cerca de 10 milhões de hectares. Apesar da melhora, a recuperação não ocorreu de forma homogênea: 20 sub-bacias da região ainda permanecem abaixo da média histórica.

Especialistas alertam que, mesmo diante dos resultados positivos observados em 2025, a crescente frequência de eventos climáticos extremos continua representando um desafio para a conservação dos recursos hídricos amazônicos e de todo o país.



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