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Mais de 40 pessoas retiradas da sede da igreja Shekinah House Church, em Paço do Lumiar, afirmaram que desejam voltar ao local onde moravam antes da operação conduzida por Auditores-Fiscais do Trabalho vinculados ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A ação realizada no dia 7 de maio resultou no resgate de trabalhadores encontrados em condições caracterizadas pelas autoridades como análogas à escravidão. A igreja era comandada pelo pastor David Gonçalves Silva, preso por suspeita de abusos sexuais, agressões físicas, violência psicológica e outros crimes denunciados por ex-integrantes da comunidade religiosa.

Após o resgate, os trabalhadores foram encaminhados para um espaço de acolhimento disponibilizado pela Secretaria de Direitos Humanos do Maranhão. No entanto, parte do grupo demonstrou resistência à permanência no abrigo e afirmou que pretende retornar à região da igreja.

Segundo o secretário adjunto de Direitos Humanos do Maranhão, Eudes Bezerra, os trabalhadores receberam orientações sobre os direitos garantidos após o resgate e sobre as opções de acolhimento oferecidas pelo Estado. De acordo com ele, nenhuma das pessoas foi obrigada a permanecer no local disponibilizado pelo governo.

O secretário destacou ainda que o acesso ao imóvel permanece restrito e que o Estado não possui meios legais para impedir que os resgatados deixem o acolhimento. Além disso, o Ministério Público do Trabalho (MPT) deverá realizar uma triagem para garantir aos trabalhadores acesso ao seguro-desemprego especial pago em casos de resgate de trabalho análogo à escravidão.

Segundo o governo estadual, muitos dos trabalhadores retirados da igreja não se identificam como vítimas de exploração. Para Eudes Bezerra, esse comportamento demonstra a complexidade do caso e o vínculo emocional criado dentro da instituição religiosa.

Igreja já havia sido investigada anteriormente

A Shekinah House Church já havia sido alvo de uma operação conjunta do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal no dia 27 de abril.

Na ocasião, as autoridades investigavam suspeitas de trabalho análogo à escravidão, mas não encontraram elementos suficientes para formalizar o enquadramento naquele momento.

Nos dias seguintes, porém, mais de dez denúncias foram registradas contra o pastor David Gonçalves Silva. Ele passou a ser investigado por crimes como estelionato, estupro de vulnerável, associação criminosa e posse sexual mediante fraude.

As investigações também apontam que a igreja funcionaria como um suposto espaço terapêutico sem autorização legal, sem licenciamento adequado e sem comprovação técnica dos responsáveis pelos atendimentos realizados no local.

A Polícia Federal apura ainda possíveis irregularidades nas condições de moradia, segurança e controle dos frequentadores da instituição.

David Gonçalves Silva foi preso no dia 17 de abril. Natural do Ceará, ele é suspeito de impor castigos físicos e psicológicos a integrantes da igreja, incluindo jovens vindos de estados como Pará e Ceará.

Relatos apontam rotina de violência e controle psicológico

De acordo com a Polícia Civil, o sistema de punições imposto pelo pastor teria funcionado durante anos como forma de controle sobre dezenas de fiéis, muitos deles em situação de vulnerabilidade social.

Entre os relatos colhidos pela investigação estão denúncias de agressões físicas, humilhações constantes, isolamento e restrição alimentar.

Uma das punições descritas pelas vítimas era chamada de “readas”, prática que consistia em chicotadas aplicadas com um reio, instrumento normalmente utilizado em cavalos.

Segundo os depoimentos, algumas pessoas chegaram a receber entre 15 e 25 golpes como forma de castigo disciplinar.

Áudios obtidos pelas autoridades também indicam que a privação de comida teria sido usada como punição. Em uma das gravações investigadas, o pastor afirma que determinados integrantes ficariam sem alimentação até que um problema interno fosse resolvido.

As vítimas afirmam ainda que os frequentadores da igreja eram chamados de “piões”, enquanto o alojamento coletivo era conhecido como “baia”.

Outro tipo de punição citado nos depoimentos envolvia a repetição escrita de frases como forma de humilhação. Algumas vítimas relataram ter sido obrigadas a escrever mais de 100 vezes mensagens de submissão ao líder religioso.

Polícia apura denúncias de abusos sexuais

Além das denúncias de violência física e psicológica, a Polícia Civil investiga acusações de abusos sexuais supostamente praticados pelo pastor.

Segundo os investigadores, os homens seriam os principais alvos das agressões sexuais dentro da comunidade religiosa. Uma das vítimas relatou que o líder religioso utilizava o medo e os castigos para impor controle sobre os integrantes.

Os depoimentos apontam consequências psicológicas profundas entre os ex-fiéis. As investigações também indicam que os moradores eram monitorados constantemente, sem liberdade de contato externo.

Segundo os relatos, homens e mulheres eram separados e havia vigilância permanente por câmeras, inclusive em momentos íntimos. Uma mulher ouvida pela polícia afirmou ter sofrido agressões, isolamento e restrição de comunicação.



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