Por Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos
Enquanto Eduardo Braide passeia por municípios maranhenses tentando vender a ideia de que deixou São Luís em perfeita ordem, a prefeita Esmênia Miranda começa a lidar, na prática, com a bomba-relógio armada pela gestão anterior dentro da capital.

A propaganda de Braide mostra apenas um pedaço da história. O ex-prefeito fala dos recursos que teria deixado em caixa, mas não explica a herança financeira pesada, as dívidas acumuladas, os fornecedores pressionando por pagamentos e os serviços essenciais ameaçados.
A cidade que ele tenta apresentar como vitrine eleitoral é a mesma que agora exige da nova prefeita habilidade política e administrativa para evitar que problemas represados explodam ao mesmo tempo.
O quadro é grave. Há informações apontando dívida superior a R$ 1 bilhão deixada pela gestão anterior. Fornecedores de áreas estratégicas, inclusive da saúde, acumulam meses sem receber. Serviços de manutenção urbana já dão sinais de tensão.
Na limpeza pública, por exemplo, a paralisação preventiva anunciada pelos trabalhadores não nasceu na gestão Esmênia. Ela é reflexo de negociações que não foram encaminhadas antes da saída de Braide e de pendências contratuais que agora pressionam a nova administração.
Não se trata de um problema criado por Esmênia. Ao contrário: é consequência direta do modelo que Braide deixou para trás. Antes de sair da Prefeitura para disputar o Governo do Maranhão, o ex-prefeito não encaminhou adequadamente negociações importantes, não resolveu passivos sensíveis e preferiu sustentar, até o último momento, a aparência de que tudo funcionava bem.
Agora, a realidade aparece.
A crise da limpeza urbana é apenas uma parte do problema. A Guarda Municipal também expõe o desgaste de uma gestão que fez muita propaganda, mas deixou conflitos concretos para a sucessora administrar. O projeto sobre progressão, cargos e salários foi enviado à Câmara sem diálogo suficiente com a categoria e provocou reação, especialmente entre servidores mais antigos, que alegam prejuízos em seus direitos. A Câmara Municipal precisou ser acionada, e a nova gestão começou a abrir uma interlocução por meio de sua liderança no Legislativo.
O transporte coletivo talvez seja a bomba mais perigosa. O sistema está cada vez mais pressionado e pode caminhar para uma situação ainda mais crítica se não houver intervenção firme da Prefeitura, diálogo com a Câmara e participação do Governo do Estado. São Luís depende dos ônibus. São centenas de milhares de usuários que não podem simplesmente ser empurrados para aplicativos, motocicletas ou soluções improvisadas. A cidade não tem malha viária, estrutura urbana nem capacidade de circulação para substituir o transporte coletivo por alternativas individuais.
Por isso, a discussão sobre licitação emergencial, reorganização do sistema, financiamento e eventual renovação da frota precisa ser tratada como prioridade. A experiência do Governo do Estado com o Passe Livre Estudantil na Região Metropolitana, além da possibilidade de apoio em projetos como ônibus elétricos, pode ajudar São Luís a construir uma saída. A Prefeitura, sozinha, dificilmente conseguirá desarmar uma crise desse tamanho.
Também há sinais preocupantes na área social. São Luís acumula problemas em políticas assistenciais, na rede de proteção, nos CRAS, nos abrigos e no atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade. Não é aceitável normalizar a presença crescente de pessoas em sofrimento social e psíquico circulando pelas ruas sem o devido acompanhamento do poder público. Esse é outro retrato de uma cidade que teve áreas sensíveis tratadas mais pela lógica da aparência do que pela lógica do cuidado.
É nesse ponto que os primeiros movimentos de Esmênia ganham importância.
A prefeita parece ter entendido que São Luís não sairá desse quadro com isolamento, arrogância ou decisão solitária de gabinete. Uma das primeiras sinalizações positivas foi a retomada do diálogo com a Câmara Municipal. A cidade passou anos submetida a uma relação de confronto entre Executivo e Legislativo, como se a Câmara fosse obstáculo, e não parte essencial do funcionamento democrático da capital.
A liberação dos recursos destinados pelos vereadores ao Hospital Aldenora Bello foi um gesto simbólico e concreto. A medida destravou verba para a construção de uma ala pediátrica de combate ao câncer, uma pauta humanitária que ficou represada em meio à disputa política entre Prefeitura e Câmara. Ao autorizar o repasse, Esmênia mostrou que não pretende administrar a cidade a partir de birras institucionais.
Outro avanço importante foi o encaminhamento da discussão sobre a Lei de Zoneamento. São Luís precisa enfrentar seus problemas urbanos com seriedade. Planejamento, ocupação do solo, mobilidade, moradia, desenvolvimento e meio ambiente não podem ser tratados como temas secundários. Ao permitir que essa pauta avance, a nova gestão começa a mexer em uma agenda estrutural que estava travada.
Há ainda a discussão sobre o Passe Livre Estudantil. A população de São Luís já aprovou essa política nas urnas, por meio de plebiscito, e há previsão de R$ 15 milhões no orçamento para iniciar sua implantação. O valor não resolve tudo, mas permite começar. E, nesse caso, o diálogo entre Prefeitura, Câmara e Governo do Estado pode transformar uma demanda histórica da juventude em política pública concreta.
A articulação para o São João também deve ser lida nesse contexto. Ao buscar diálogo com os vereadores e construir ações conjugadas, Esmênia sinaliza que a cidade pode voltar a funcionar por meio de pactos institucionais, e não pela vontade isolada de uma única pessoa.
Mas a prefeita terá de enfrentar também um problema interno: parte da equipe herdada ainda parece presa aos vícios e ao comando político da gestão anterior. Nos bastidores da política municipal, já circula a avaliação de que alguns secretários continuam mais alinhados às orientações de Eduardo Braide do que ao novo momento da Prefeitura, tentando preservar a aparência de normalidade enquanto os problemas reais se acumulam.
Secretários chamados pela Câmara para prestar esclarecimentos não podem simplesmente ignorar o Legislativo. Se Esmênia quer dar outra tônica à gestão, terá de imprimir comando próprio sobre a máquina, ajustar a equipe e deixar claro que São Luís agora precisa de gestão, não de tutela à distância.
Governar exige comando. E comando não se exerce apenas mantendo nomes, carimbando processos ou administrando crises herdadas. Exerce-se com autoridade política, clareza de rumo e capacidade de substituir práticas que já se mostraram insuficientes.
A aproximação com o governador Carlos Brandão também é parte desse caminho. Nenhuma capital perde quando Prefeitura e Governo do Estado conversam. Ao contrário: ganha a população. Saúde, transporte, assistência social, mobilidade, cultura, juventude e infraestrutura exigem cooperação. A política do isolamento pode render vídeos e curtidas, mas não entrega soluções duradouras.
Braide governou São Luís como quem não precisava de ninguém. Zombou da classe política, tensionou a relação com vereadores, alimentou a ideia de que só ele sabia fazer e tentou transformar a Prefeitura em vitrine pessoal. Agora, fora do cargo, segue vendendo pelo Maranhão a imagem de gestor eficiente, como se a capital não estivesse revelando, dia após dia, os nós deixados por seu modo centralizador de governar.
Esmênia, por sua vez, começa a mostrar outro caminho. Ainda com limites, ainda diante de muitos problemas e ainda tendo que se firmar dentro da própria máquina, a prefeita dá sinais de que compreendeu a gravidade do momento. A cidade precisa de diálogo, pactuação, remanejamentos, revisão de prioridades e parceria institucional. Precisa de uma gestão que ouça a Câmara, dialogue com categorias, busque apoio do Governo do Estado e trate a população como destinatária das decisões, não como plateia de propaganda.
A política de ego, do centralismo e do “professor de Deus” precisa ficar para trás. São Luís não precisa de um governante que ache que sabe tudo, decide tudo e não deve explicações a ninguém. Precisa de uma Prefeitura capaz de reconhecer problemas, construir soluções e agir com responsabilidade.
A bomba-relógio deixada por Braide está posta. Ela aparece na dívida, nos fornecedores, na limpeza pública, na Guarda Municipal, no transporte coletivo, na assistência social e nas pautas represadas durante anos. Esmênia começa agora a tentar desarmá-la.
O desafio é enorme. Mas os primeiros movimentos indicam que São Luís pode sair da paralisia administrativa e política em que foi deixada. A cidade volta a respirar quando a Prefeitura deixa de ser projeto pessoal e passa a funcionar como instituição.
A conclusão política é inevitável. Se, depois de seis anos, São Luís ficou com tantos problemas represados, tantas áreas ameaçadas e tantos conflitos institucionais acumulados, a pergunta precisa ser feita: se foi assim com a capital, como seria com o Maranhão inteiro?
