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Mais de 40 trabalhadores foram resgatados em situação análoga à escravidão durante uma operação realizada na sede da igreja Shekinah House Church, no município de Paço do Lumiar, na Região Metropolitana de São Luís. A ação ocorreu nesta quinta-feira, 7, e foi conduzida pelo Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho (MPT-MA) e Polícia Federal.

Pastor David, preso. Foto: PCMA

A igreja era liderada pelo pastor David Gonçalves Silva, preso desde o dia 17 de abril por suspeita de abusos sexuais, agressões físicas e punições psicológicas contra fiéis. Segundo as investigações, o esquema de castigos ajudou o líder religioso a manter controle sobre cerca de 100 a 150 pessoas ao longo dos anos.

De acordo com a polícia, muitas vítimas estavam em situação de extrema vulnerabilidade social e procuraram a igreja em busca de acolhimento. Um dos relatos aponta que um jovem chegou ao local aos 13 anos, quando vivia em situação de rua.

As investigações revelam que os castigos aplicados tinham até nomes específicos. Um deles era chamado de “readas”, punição que consistia em chicotadas com um reio, instrumento usado em cavalos. Em um dos episódios relatados à polícia, quatro vítimas sofreram entre 15 e 25 chicotadas cada.

Além das agressões físicas, a privação de comida também teria sido usada como forma de punição. Em um áudio atribuído ao pastor, ele afirma: “Até resolver a situação da bomba, estão sem comer”. Segundo os investigadores, os fiéis eram chamados de “piões”, enquanto o espaço onde dormiam era denominado “baia”.

Foto: PCMA

A polícia afirma ainda que os frequentadores viviam sob rígido controle dentro da igreja, sem contato externo. Havia separação entre homens e mulheres, monitoramento constante por câmeras e até vigilância durante o banho.

Durante a operação, os agentes apreenderam folhas com a frase “Eu preciso aprender a respeitar o meu líder” escrita mais de 100 vezes. Segundo a investigação, escrever repetidamente a frase fazia parte das punições impostas pelo pastor. Um vídeo anexado ao inquérito mostra um adolescente em estado de exaustão após passar horas em pé, sem dormir, sendo obrigado a copiar a mensagem durante toda a noite.

Segundo a Polícia Civil, homens eram os principais alvos dos abusos sexuais atribuídos ao líder religioso. Uma das vítimas relatou aos investigadores que o pastor dizia: “Por fora, podia ser homem, mas que, em quatro paredes, tinha que ser mulher”. O depoimento aponta que os abusos ocorreram durante vários anos.

Outra vítima afirmou ter sofrido agressões, isolamento e humilhações dentro da instituição. “Já apanhei, já fiquei sem refeição, já fiquei trancada no quarto sem poder falar com ninguém. Ele também pedia para as pessoas lá do local me tratarem como louca”, relatou.

Os trabalhadores resgatados foram encontrados em condições degradantes. A Vigilância Sanitária interditou o imóvel, e os acolhidos serão encaminhados para atendimento organizado pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Parte deles permanecerá no local para cuidar dos animais do haras que funcionava na propriedade.

Além da Polícia Federal e do MPT, a operação contou com apoio da Polícia Militar, Ministério Público Estadual, Defensoria Pública, assistentes sociais e equipes do Samu.



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