O Ministério da Fazenda identificou indícios de um possível esquema de pirâmide financeira envolvendo a Lecar, empresa que se apresenta como montadora brasileira de veículos elétricos e híbridos e que tem à frente o empresário capixaba Flávio Figueiredo Assis, conhecido nas redes sociais como o “Elon Musk brasileiro”. A conclusão consta em nota técnica elaborada pela Secretaria de Prêmios e Apostas, que aponta sinais de irregularidades no modelo de negócios adotado pela companhia.

De acordo com o documento, há “forte indicativo de conduta potencialmente fraudulenta” na forma como a empresa vem comercializando seus veículos, ainda inexistentes no mercado. A Lecar promove um sistema chamado “Compra Programada”, no qual clientes assumem pagamentos parcelados entre 48 e 72 meses, sem cobrança de juros, sob a promessa de receber o automóvel na metade do prazo contratado. No entanto, a análise técnica destaca que a empresa não possui autorização para operar esse tipo de modalidade.
A investigação também levanta preocupações sobre a estrutura financeira do negócio. Entre os principais pontos identificados estão a cobrança de taxa de adesão para que participantes atuem como revendedores, a oferta de um produto que ainda não foi validado ou produzido, o uso de estratégias de persuasão baseadas em urgência e escassez e, principalmente, a dependência da entrada de novos clientes para sustentar o fluxo de caixa da empresa.
O relatório ressalta ainda que promessas de ganhos elevados sem a necessidade de investimento consistente ou atividade econômica concreta são características recorrentes em esquemas fraudulentos. Esse tipo de prática, segundo o documento, já é amplamente reconhecido por órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários e entidades de defesa do consumidor como um sinal de alerta.
As suspeitas levaram à abertura de um inquérito por parte do Ministério Público Federal, que passou a apurar possíveis ilícitos envolvendo a Lecar e seus administradores. A análise inicial aponta para duas frentes principais: a existência de uma estrutura semelhante à de pirâmide financeira e a possível prática de publicidade enganosa, em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor.
Criada em 2022, a Lecar ganhou visibilidade ao se apresentar como uma iniciativa nacional com o objetivo de impulsionar a indústria automotiva brasileira no segmento de eletrificação. A estratégia de comunicação da empresa faz referência direta à trajetória da Tesla, explorando a narrativa de inovação e ruptura tecnológica. Em publicações nas redes sociais, o próprio fundador relata ter desmontado um veículo elétrico para compreender seu funcionamento antes de iniciar o projeto.
Ao longo do desenvolvimento, a empresa alterou pontos centrais do planejamento inicial. A proposta de fabricar carros totalmente elétricos foi substituída pelo foco em modelos híbridos. Também houve mudanças na localização da futura fábrica, inicialmente cogitada para o Sul do país e posteriormente definida para o município de Sooretama, no Espírito Santo. O projeto prevê investimento de R$ 870 milhões e capacidade de produção de até 120 mil veículos por ano, com início das operações estimado para o segundo semestre de 2027.
O empresário negou qualquer irregularidade e afirmou que o modelo de negócios da Lecar é transparente. Segundo ele, os clientes têm ciência de que os veículos ainda estão em fase de desenvolvimento e que a proposta envolve a adesão a um projeto de longo prazo. Ele também contestou a avaliação de que a empresa utilize estratégias de pressão para atrair novos participantes.
Flávio reconhece, no entanto, que há atrasos no cronograma da fábrica, mas afirmou que o projeto segue em andamento e que a empresa pretende avançar em breve para a etapa de lançamento da pedra fundamental, e evitou informar números sobre vendas ou estrutura operacional da Lecar, mas disse que o empreendimento tem atraído interessados que acreditam na proposta de retomada da indústria automotiva nacional.


