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Estranhamente, o jornal Estado de S. Paulo requentou, nesta sexta-feira, 3, a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de assumir a relatoria do inquérito sobre o assassinato do Tech Office, registrando em São Luís. O próprio Estadão havia publicado praticamente a mesma matéria há cerca de uma semana, voltando a dar destaque para um processo que agora o ministro Dino resolveu tirar do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e tomar o comando para si. O caso, que cita o nome de familiares do governador Carlos Brandão, também menciona o senador Weverton Rocha e levanta suspeitas que ampliaram a repercussão política e jurídica do episódio no estado.

Ministro Flávio Dino

Leia a íntegra da matéria requentada pelo jornal paulista:

Dino assume inves­ti­ga­ção de homi­cí­dio no MA que cita sobri­nho de gover­na­dor

O minis­tro Flá­vio Dino, do Supremo Tribunal Fede­ral (STF), tirou do Supe­rior Tri­bu­nal de Jus­tiça (STJ) e assu­miu ele mesmo a rela­to­ria de um inqu­é­rito sobre um assas­si­nato ocor­rido em São Luís (MA), em 2022, que cita fami­li­a­res do gover­na­dor Car­los Bran­dão (PSB). O caso conta ainda com o relato de uma suposta pres­são do sena­dor Wever­ton Rocha (PDT-MA) para tra­var pro­cesso no STJ.

A inves­ti­ga­ção, que tra­mita sob sigilo, envolve sus­pei­tas de uso da estru­tura esta­tal para pou­par pes­soas liga­das ao gover­na­dor, mudança de ver­são em depoi­men­tos, acu­sa­ções de pro­pina e até crí­ti­cas a Dino por se man­ter como res­pon­sá­vel por um pro­cesso que pode bene­fi­ciar mem­bros do grupo polí­tico dele.

Como novo rela­tor da inves­ti­ga­ção, Dino deter­mi­nou o blo­queio de apu­ra­ção da Polí­cia Civil do Mara­nhão que mirava denún­cias fei­tas pela mulher do assas­sino con­tra ali­a­dos do governo. Segundo o minis­tro, havia “perigo de inter­fe­rên­cia” na inves­ti­ga­ção.

Pro­cu­rado, o governo do Mara­nhão afir­mou que chama a aten­ção o fato de o pró­prio minis­tro ter avo­cado para si a rela­to­ria de “mais um pro­cesso que envolve nar­ra­ti­vas dire­ci­o­na­das con­tra o gover­na­dor Car­los Bran­dão” e que “causa estra­nheza a ten­ta­tiva de conec­tar temas de natu­re­zas com­ple­ta­mente dis­tin­tas”.

Wever­ton Rocha disse que “causa pro­funda estra­nheza que notí­cia sem fonte e sem base em fatos” seja usada para ten­tar ligá-lo a even­tos com os quais não tem cone­xão. “Medi­das pro­te­la­tó­rias, com inte­res­ses inex­pli­cá­veis, somente estão a ser­viço de retar­dar o tra­ba­lho da Jus­tiça e bene­fi­ciar o acu­sado em ques­tão.”

Dino foi pro­cu­rado, por meio de sua equipe, mas não se mani­fes­tou.

INQUÉRITO. O novo inqu­é­rito, con­du­zido pela Polí­cia Fede­ral desde maio do ano pas­sado, foi aberto depois da inves­ti­ga­ção esta­dual que resul­tou na con­de­na­ção do assas­sino a 13 anos de pri­são. O inqu­é­rito fede­ral apura se o assas­si­nato tem rela­ção com uma suposta cobrança de pro­pina por parte de Daniel Bran­dão, sobri­nho do gover­na­dor.

Hoje con­se­lheiro do Tri­bu­nal de Con­tas do Mara­nhão (TCE-MA), Daniel estava no local do crime e se reu­niu com os envol­vi­dos pouco antes do assas­si­nato. O con­se­lheiro afirma que rejeita ten­ta­ti­vas de asso­ciar sua ima­gem a prá­ti­cas ilí­ci­tas e que sofreu ten­ta­tiva de extor­são por parte de quem agora o denun­cia.

Dino puxou para si o caso que estava no STJ depois de ter sido sor­te­ado, em outu­bro, rela­tor de um habeas cor­pus apre­sen­tado pelo assas­sino con­de­nado Gilb­son Cesar Soa­res Cutrim Junior. Ao ana­li­sar o recurso, o minis­tro enten­deu que a inves­ti­ga­ção tem rela­ção com pro­ces­sos que já tra­mi­tam sob a super­vi­são dele.

A defesa do assas­sino ale­gou que havia trans­cor­rido prazo para livra­mento con­di­ci­o­nal, mas o então rela­tor, o minis­tro Hum­berto Mar­tins, do STJ, dei­xou de apre­ciar pedi­dos. No recurso ao STF, a defesa tam­bém disse que Mar­tins foi “desi­di­oso” (negli­gente) em um caso que car­rega ele­men­tos que indi­cam a par­ti­ci­pa­ção de agen­tes polí­ti­cos do Mara­nhão no crime.

ANOMALIAS. Ao deci­dir assu­mir o caso, Dino afir­mou ter iden­ti­fi­cado, “em uma pri­meira aná­lise”, uma mar­cha pro­ces­sual com “diver­sas ano­ma­lias”, “con­fu­são pro­ces­sual”, “pro­ce­di­men­tos desor­de­na­dos” e uma “bal­búr­dia” que dei­xou reque­ri­men­tos pen­den­tes de deli­be­ra­ção. Ele tam­bém apon­tou risco de “queima de arquivo”, sobre­tudo con­tra a mulher do assas­sino, que rela­tou ame­a­ças con­tra a famí­lia e levou o caso a ser rea­berto.

Pro­cu­rado, o gabi­nete do minis­tro Hum­berto Mar­tins afir­mou que todas as infor­ma­ções soli­ci­ta­das foram escla­re­ci­das e envi­a­das a Dino. A defesa de Gilb­son Jr. disse que não pode­ria se mani­fes­tar sobre o caso.

Na deci­são, Dino fri­sou que nem a perí­cia do tele­fone celu­lar do preso havia sido feita. “A pró­pria tes­te­mu­nha per­ma­nece exposta a ame­aça de eli­mi­na­ção física. As inti­mi­da­ções par­tem de indi­ví­duo vin­cu­lado a mem­bros da famí­lia do gover­na­dor do Estado. As lacu­nas obser­va­das na inves­ti­ga­ção do homi­cí­dio reve­lam pos­sí­vel cap­tura de ser­vi­do­res públi­cos esta­du­ais”, afir­mou.

Dino tam­bém con­si­de­rou “fatos novos” apre­sen­ta­dos pelo assas­sino no habeas cor­pus. A defesa ane­xou publi­ca­ção feita por um blog segundo a qual Wever­ton Rocha teria falado a ali­a­dos durante um evento público no Mara­nhão que havia feito uma pro­posta de R$ 22 milhões a inte­grante do STJ para aba­far o pro­cesso que pode pre­ju­di­car a famí­lia Bran­dão.

“Quanto ao sena­dor da Repú­blica, con­forme tenho real­çado em suces­si­vas deci­sões, o esta­tuto cons­ti­tu­ci­o­nal dos par­la­men­ta­res demanda a máxima pru­dên­cia acerca do foro por prer­ro­ga­tiva de fun­ção, cabendo exclu­si­va­mente ao STF aqui­la­tar a plau­si­bi­li­dade de even­tual inves­ti­ga­ção con­tra o mem­bro do Con­gresso Naci­o­nal”, des­ta­cou Dino.

Ao argu­men­tar que o caso deve­ria tra­mi­tar sob cui­da­dos dele mesmo, Dino indi­cou para­le­los com pro­ces­sos que tra­tam do pre­en­chi­mento de vagas de con­se­lhei­ros do Tri­bu­nal de Con­tas do Mara­nhão e já estão sob a rela­to­ria dele.

Após a nome­a­ção do sobri­nho para o cargo vita­lí­cio, o gover­na­dor Car­los Bran­dão quis nomear o amigo e advo­gado pes­soal Flá­vio Costa. Uma ação movida por par­ti­dos polí­ti­cos no STF con­tra a nome­a­ção caiu por sor­teio jus­ta­mente para Dino, que bar­rou a indi­ca­ção ques­ti­o­nando cri­té­rios regi­men­tais da esco­lha.

Bran­dão foi vice de Dino quando o minis­tro do STF gover­nou o Mara­nhão por dois man­da­tos. O então gover­na­dor dei­xou o Palá­cio dos Leões, em abril de 2022, para con­cor­rer ao Senado. Bran­dão assu­miu a cadeira e ven­ceu as elei­ções, em outu­bro. Depois, eles foram se afas­tando até o rom­pi­mento. Hoje, os ali­a­dos de Dino são rivais do grupo de Bran­dão na polí­tica local.

‘RESOLVE TUDO’. Em depoi­mento pres­tado à Polí­cia Fede­ral e ao Minis­té­rio Público Fede­ral, Gilb­son Jr. disse que Car­los Bran­dão lhe apre­sen­tou Flá­vio Costa como um “resolve tudo” da famí­lia. Costa foi citado em depoi­mento como figura de um “núcleo jurí­dico” dos Bran­dões que esta­ria a par de ser­vi­ços pres­ta­dos por Gilb­son Jr. à famí­lia.

Na deci­são, Dino afir­mou que os fatos nar­ra­dos no habeas cor­pus “podem indi­car uma hipo­té­tica orga­ni­za­ção cri­mi­nosa dedi­cada a con­tro­lar o Tri­bu­nal de Con­tas do Estado do Mara­nhão com uso de estru­tu­ras admi­nis­tra­ti­vas, inclu­sive poli­ci­ais, e suposta cor­rup­ção com pro­posta de aco­ber­tar cri­mes, inclu­sive de homi­cí­dio”.

Em 19 de agosto de 2022, Gilb­son Jr. ati­rou e matou João Bosco Pereira, no Tech Office, um conhe­cido pré­dio comer­cial de São Luís. O assas­sino mudou a ver­são sobre o crime ao longo do tempo. Pri­meiro, disse que matou Bosco por um mero desen­ten­di­mento. Mais tarde, pas­sou a afir­mar que pres­tava ser­vi­ços para a famí­lia Bran­dão e que o assas­si­nato ocor­reu após reu­nião para a qual foi cha­mado para tra­tar de pro­pina com Daniel Bran­dão. Seis meses depois, Daniel ganhou, aos 37 anos, o cargo vita­lí­cio de con­se­lheiro do TCE-MA. •



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