O jornal Folha de S.Paulo publicou editorial em que critica a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou operação da Polícia Federal contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida, autor do Blog do Luís Pablo. No texto, o jornal afirma que a medida representa um afronta à liberdade de expressão e aponta o que classifica como “arbítrio” na decisão judicial.

Luís Pablo e o ministro Alexandre de Moraes

No editorial, a publicação também menciona que a ação ocorreu no âmbito do chamado Inquérito das Fake News e foi motivada por reportagens do jornalista sobre suposto uso de um veículo do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo ministro Flávio Dino e familiares. A seguir, reproduzimos a íntegra do editorial publicado pelo jornal.

“Moraes usa o arbítrio para proteger o colega Dino

Operação policial contra jornalista determinada pelo ministro afronta a liberdade de expressão Quaisquer que sejam os méritos ou deméritos da reportagem, é absurdo qualificar como crime de perseguição o que é apuração jornalística

Ímpeto censório e corporativismo se combinam de modo abominável na determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que levou a Polícia Federal a cumprir na terça-feira (10) mandados de busca e apreensão contra o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, de São Luís (MA), autor do Blog do Luís Pablo.

Sob o manto do infindável inquérito das fake news, iniciado de forma heterodoxa em 2019 para investigar ameaças e ataques do bolsonarismo à corte, a ação apreendeu celulares e computadores do profissional.

Luís Pablo publicou, em novembro de 2025, relatos sobre o suposto uso pelo ministro Flávio Dino, colega de Moraes no Supremo, e por sua família de um carro custeado pelo Tribunal de Justiça do Maranhão.

Quaisquer que sejam os méritos ou deméritos da reportagem, não passa de puro arbítrio qualificar como possível crime de perseguição —em razão da identificação de veículos de autoridades e a pretexto de preocupações com a segurança delas— o que é apuração jornalística e escrutínio do poder protegido nas democracias pela liberdade de imprensa.

Caberia aos envolvidos desmentir, se assim quisessem e pudessem, as informações publicadas e buscar a devida reparação, se fosse o caso. O que se fez foi uma tentativa de intimidação.

Corretamente, a medida foi alvo de críticas por parte de associações de imprensa, entre elas a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Editoras de Revistas (Aner), além da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas do Maranhão.

O papel louvável do Supremo e do próprio Moraes na preservação do Estado de Direito e no enfrentamento do golpismo patrocinado por Jair Bolsonaro (PL) não autoriza seus ministros a se pretenderem imunes a críticas e questionamentos —e nem se fala aqui das graves suspeitas relacionadas ao caso Master.

A fiscalização pela imprensa e pela sociedade de atos dos magistrados não prejudica a corte, antes pelo contrário.

O que compromete sua imagem é o caráter sigiloso do processo contra o jornalista, bem como a falta de clareza sobre os parâmetros usados para separar a atividade jornalística de eventuais abusos em publicações de dados sensíveis de autoridades. A ambiguidade dá margem à intimidação e à censura.

A Constituição brasileira, que o Supremo Tribunal deveria aplicar e proteger, dispõe que é “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.”


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