A violência contra mulheres segue em níveis alarmantes no Brasil e no mundo. Dados recentes de organismos internacionais e de instituições de segurança pública mostram que o feminicídio permanece como uma das faces mais graves da violência de gênero. No país, a média já chega a quatro mulheres assassinadas por dia em crimes motivados por discriminação de gênero ou em contextos de violência doméstica e familiar.

Relatório divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em parceria com a ONU Mulheres indica que, em 2024, cerca de 83 mil mulheres foram vítimas de homicídio intencional no mundo, sendo que 50 mil delas, aproximadamente 60%, morreram pelas mãos de parceiros ou familiares. Isso significa que, globalmente, uma mulher ou menina é morta a cada dez minutos em situações de violência dentro do próprio círculo de convivência.

O levantamento mostra que o feminicídio raramente acontece de forma repentina. Na maioria dos casos, ele é o desfecho extremo de um ciclo de agressões que inclui ameaças, controle, perseguição, humilhação e violência psicológica. Muitas dessas práticas começam no ambiente doméstico e se intensificam ao longo do tempo até culminar na morte da vítima.

Violência também se expande no ambiente digital

Também cresce o registro de agressões associadas ao ambiente digital. O relatório das Nações Unidas cita situações de compartilhamento não autorizado de imagens íntimas, perseguição online, exploração sexual e uso de deepfakes, conteúdos manipulados com inteligência artificial que podem ser utilizados para intimidar ou constranger vítimas.

Em diversos registros analisados por organismos internacionais, a violência virtual aparece integrada a um conjunto de práticas de controle e intimidação. A pressão exercida por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens e outras plataformas digitais pode evoluir para agressões físicas e ameaças diretas.

Brasil registra crescimento do crime

No Brasil, os números mostram uma tendência preocupante. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, desde a criação da tipificação do feminicídio na legislação brasileira, em 2015, pelo menos 13.703 mulheres foram assassinadas por razões de gênero.

Levantamento do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública indica que o país registrou ao menos 1.470 feminicídios em 2025, número superior aos 1.464 casos contabilizados em 2024. Mesmo com dados ainda incompletos para alguns estados, as estatísticas apontam média de aproximadamente quatro assassinatos de mulheres por dia no território brasileiro.

Entre os estados com maior número absoluto de registros em 2025 aparecem São Paulo, com 233 casos, Minas Gerais com 139 e Rio de Janeiro com 104. O Acre apresenta a maior taxa proporcional, com 3,38 feminicídios para cada 100 mil mulheres.

Outro dado que chama atenção é o crescimento das tentativas de feminicídio. Em 2025 foram registradas 3.702 ocorrências, aumento de 16,3% em relação ao ano anterior. Nos últimos seis anos o país acumulou mais de 15 mil tentativas de assassinato de mulheres por razões de gênero.

Mulheres negras são as principais vítimas

Os estudos também mostram que a violência letal atinge de forma desigual diferentes grupos sociais. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 68% das vítimas de feminicídio no país são mulheres negras.

A distribuição da violência acompanha desigualdades históricas relacionadas a renda, acesso a serviços públicos e presença da rede de proteção. Em muitas regiões, mulheres em situação de maior vulnerabilidade social encontram mais obstáculos para denunciar agressões ou acessar medidas de proteção.

Maranhão apresenta redução nos registros

No Maranhão, dados da Secretaria de Segurança Pública indicam redução nos registros recentes. O estado contabilizou 51 feminicídios em 2025, contra 69 casos em 2024, o que representa queda de cerca de 27%.

A diminuição corresponde a 18 vidas preservadas no período analisado. O recuo também foi observado em áreas estratégicas do estado, como a Grande São Luís, onde os registros diminuíram cerca de 45%, e na região de Imperatriz, que apresentou redução de 75%.

Rede de proteção ainda enfrenta desafios

Mesmo com avanços legais importantes, a resposta institucional ainda enfrenta dificuldades em diversas regiões do país. Em muitos casos registrados pelas autoridades, as vítimas já haviam procurado delegacias, relatado ameaças ou solicitado medidas protetivas antes do crime.

A existência da legislação, por si só, não garante proteção efetiva quando os mecanismos de prevenção, acompanhamento e acolhimento funcionam de forma fragmentada ou com estrutura limitada. A distância entre o registro da violência e a intervenção do poder público ainda aparece em diferentes levantamentos nacionais.

Os dados mais recentes indicam que a violência contra mulheres permanece como um problema estrutural no país, com números que seguem elevados mesmo após avanços legais e expansão de políticas públicas em várias regiões.


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