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Por Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos

O cenário político do Maranhão começa a expor, com mais nitidez, movimentos que até então se restringiam aos bastidores. E um dos episódios mais reveladores desse momento envolve a senadora Eliziane Gama e o prefeito de São Luís, Eduardo Braide.

Eliziane tem sido alvo, nas últimas semanas, de uma campanha sistemática de desgaste promovida por setores do campo evangélico alinhados ao bolsonarismo. O motivo é conhecido: sua proximidade com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua atuação em pautas progressistas no Congresso Nacional — inclusive em temas que contrariam parte da base religiosa com a qual mantém vínculo histórico.

Esse movimento não surge por acaso. Trata-se de uma reação política à escolha feita pela senadora de atuar para além de um alinhamento automático a interesses corporativos, posicionando-se em debates estruturantes para o país. Ao fazer isso, passou a incomodar — especialmente em um ambiente político que ainda reage com mais intensidade quando esse protagonismo parte de uma mulher.

Mas o que torna esse episódio ainda mais significativo é a atuação indireta de Braide nesse processo. Sem se expor publicamente, o prefeito permite — e, nos bastidores, estimula — que aliados façam os ataques por ele. Nesse contexto, ganha relevo o papel de seu irmão, Fernando Braide, que tem atuado como uma espécie de porta-voz informal, vocalizando posições que o prefeito não tem coragem de admitir em público.

Esse método não é trivial. Ao terceirizar o ataque, Braide preserva a imagem que construiu nas redes sociais — a de gestor técnico, equilibrado e avesso a conflitos — enquanto, na prática, participa de uma estratégia de desgaste contra uma correligionária de peso nacional.

A contradição é evidente. Como presidente estadual do partido ao qual Eliziane é filiada — e sendo ela própria vice-presidente nacional do PSD —, seria esperado que Braide atuasse para fortalecer quadros relevantes da própria legenda, especialmente uma senadora em exercício, com atuação reconhecida no cenário nacional. Em vez disso, opta por se beneficiar — ainda que de forma indireta — de um processo de enfraquecimento político.

Mais do que omissão, trata-se de uma postura política clara. Ao não apenas deixar de defender uma correligionária de peso nacional, mas permitir — ainda que de forma indireta — o seu desgaste, Braide sinaliza, na prática, que despreza Eliziane Gama.

Mais do que um episódio isolado, esse comportamento revela um padrão autoritário.

Em São Luís, a sanha autoritária de Eduardo Braide se manifesta com clareza na sua relação com a Câmara Municipal. Divergências políticas, que deveriam ser tratadas no campo institucional, são frequentemente convertidas em confronto aberto. Vereadores que se posicionam de forma contrária tornam-se alvo de ataques — não apenas no debate político, mas também nas redes sociais, em um ambiente de tensão que o próprio prefeito alimenta ao expor conflitos e estimular a pressão sobre parlamentares. Em vez de construir pontes, Braide radicaliza o embate. E, quando contrariado, desloca a disputa para o campo da mobilização direta, acionando sua base para constranger e isolar adversários.

A política, para Braide, parece funcionar sob uma lógica de centralização extrema, em que o protagonismo precisa estar concentrado em torno de si. Espaços autônomos, lideranças com densidade própria ou figuras que escapem ao seu controle direto tornam-se, nesse modelo, elementos a serem neutralizados — não incorporados.

Esse tipo de condução pode até produzir resultados no curto prazo, especialmente quando ancorado em forte presença digital. Mas cobra um preço no médio e longo prazo. Porque política não se sustenta como projeto individual.

Nenhuma liderança — por mais popular que seja — constrói um projeto de poder duradouro sem alianças, sem articulação e sem capacidade de conviver com divergências internas. Quando essa dinâmica é substituída por uma lógica de imposição e controle, o resultado costuma ser o isolamento.

E esse movimento já começa a aparecer no Maranhão. A postura centralizadora de Eduardo Braide tem provocado um efeito perceptível nos bastidores: lideranças políticas que poderiam compor o seu campo passam a buscar alternativas mais abertas ao diálogo.

É nesse contexto que cresce o espaço de Orleans Brandão. Com uma estratégia oposta, baseada na escuta, na presença territorial e na construção de relações políticas diretas, Orleans tem percorrido municípios, dialogado com diferentes grupos e se colocado como uma alternativa agregadora.

O contraste é claro. De um lado, um projeto que tende à centralização e ao controle. De outro, uma construção política que aposta na soma, na articulação e na capilaridade.

Esse tipo de diferença, embora muitas vezes invisível no debate público imediato, costuma ser decisivo em processos eleitorais. Porque eleições não são apenas disputas de imagem — são, sobretudo, disputas de estrutura política.

O episódio envolvendo Eliziane Gama, portanto, é mais do que um embate pontual. Ele ajuda a revelar como determinados projetos estão sendo conduzidos — e quais são os seus limites.

Ao se alinhar, ainda que nos bastidores, a setores conservadores que hoje lideram ataques contra uma aliada do governo Lula, Braide deixa de sustentar a imagem de neutralidade que tenta projetar. A neutralidade que ele sugere não se sustenta diante dos seus próprios movimentos. Ao evitar o posicionamento público, mas permitir — e se beneficiar — desse tipo de ofensiva, o prefeito revela, na prática, de que lado está.

Diante disso, a questão deixa de ser apenas sobre o comportamento de Braide e passa a ser uma escolha do próprio eleitor. De que lado se quer estar? Do lado de quem entende a política como instrumento para enfrentar desigualdades, gerar oportunidades e melhorar a vida das pessoas — ou do lado de quem ainda enxerga o poder como algo a ser concentrado, controlado e exercido de forma personalista, como se uma cidade — ou um estado — pudesse ser governada à vontade de um só?



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