A revista britânica The Economist afirmou que o Brasil deve servir de alerta para economias desenvolvidas diante do risco de “brasilização” — cenário em que juros elevados tornam a dívida pública progressivamente mais difícil de administrar.

Segundo a publicação, o país apresenta um paradoxo: reúne indicadores que, à primeira vista, seriam positivos — como crescimento econômico, banco central independente e resultado primário próximo do equilíbrio —, mas convive com uma dinâmica de endividamento considerada preocupante.

Com a taxa básica de juros elevada, a revista avalia que o governo brasileiro deve tomar empréstimos equivalentes a cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano apenas para arcar com o pagamento de juros, mesmo mantendo as contas primárias próximas do equilíbrio.

O texto destaca que a dívida líquida, em torno de 66% do PIB, é alta para padrões de emergentes, embora ainda inferior à de países ricos. Projeções do Fundo Monetário Internacional indicam que a dívida pública bruta do Brasil pode chegar a 99% do PIB em 2030 — patamar bem acima dos 62% registrados em 2010.

A publicação afirma que o país enfrenta uma escolha difícil entre um ajuste fiscal profundo e o risco de uma espiral de juros e endividamento. No entanto, considera que a austeridade severa é politicamente improvável no curto prazo, avaliando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou gastos, o que reduziria as chances de um aperto fiscal mais rigoroso.

FATORES ESTRUTURAIS

Para explicar por que o Brasil paga juros mais altos que economias avançadas, a revista cita fatores institucionais e históricos. Entre eles, instituições consideradas frágeis e que teriam sido pressionadas durante a tentativa de ruptura institucional associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.

O histórico inflacionário também pesa. O texto afirma que a inflação brasileira reage mais rapidamente a choques devido ao trauma da hiperinflação das décadas de 1980 e 1990 e à recessão mais recente.

Outro ponto destacado é a rigidez do gasto público, especialmente com previdência. O país destina cerca de 10% do PIB a aposentadorias e, sem novas reformas, pode gastar proporcionalmente mais com pensões até 2050 do que nações mais ricas e envelhecidas.

ALERTA PARA O MUNDO RICO

Para a revista, o Brasil funciona como um “aviso antecipado” para economias avançadas. O editorial sustenta que os Estados Unidos já demonstrariam sinais iniciais desse processo, com instituições sob pressão e inflação mais persistente após a pandemia.

O texto cita o ex-presidente Donald Trump ao mencionar tensões institucionais e riscos de politização de órgãos estatais, além do peso crescente de despesas com saúde e aposentadorias nos orçamentos.

PROBLEMAS ALÉM DO GOVERNO ATUAL

Em análise anterior, a revista já havia afirmado que a trajetória da dívida brasileira é insustentável e que os riscos fiscais não se explicam apenas pela política econômica atual, mas por um sistema influenciado por interesses consolidados e protegidos pela Constituição.

O texto também critica a complexidade do sistema tributário, apontando perdas relevantes de crescimento econômico associadas à baixa credibilidade fiscal. Por outro lado, reconhece avanços recentes, como mudanças tributárias e limites a benefícios, que podem elevar o PIB no longo prazo.

Ainda assim, a avaliação final é de que, sem reformas estruturais adicionais, o país tende a permanecer preso a um modelo fiscal frágil, com impactos persistentes sobre crescimento e confiança


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

×