A revista britânica The Economist publicou reportagem crítica ao Supremo Tribunal Federal, afirmando que a Corte brasileira estaria no centro de um “enorme escândalo”. O texto reúne episódios recentes que, segundo a publicação, levantam questionamentos sobre a relação entre ministros do tribunal, empresários e agentes políticos.

A reportagem afirma que alguns dos magistrados “mais poderosos do mundo” manteriam proximidade excessiva com a elite empresarial e política, ampliando desconfianças dentro e fora do país. O foco recai principalmente sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Ao tratar do caso do Banco Master e de seu controlador, Daniel Vorcaro, a revista diz que “houve problemas desde o princípio” na condução do processo. Entre os pontos citados, afirma que Toffoli viajou em jatinho privado com advogado da instituição, reduziu o prazo para depoimento de testemunhas à Polícia Federal e restringiu o acesso de peritos ao material apreendido, decisão da qual teria recuado depois.
A publicação também menciona informações da imprensa brasileira de que Vorcaro investiu em resort pertencente aos irmãos de Toffoli, no qual o ministro teria participação. Segundo a reportagem, ele nega irregularidades e se afastou da relatoria após pressões.
No cenário político, a revista avalia que o momento é sensível diante da expectativa de avanço de candidatos de direita no Senado nas eleições de outubro, o que poderia viabilizar pedidos de impeachment contra ministros do STF. O texto acrescenta que setores da direita mantêm animosidade em relação à Corte por seu papel no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Alexandre de Moraes também é citado. A Economist classifica como “estranhamente vago e lucrativo” o contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, com previsão de pagamentos milionários por três anos. Após a divulgação do acordo, segundo a revista, o ministro determinou investigações sobre suposto vazamento de dados fiscais.
De acordo com a publicação, Moraes determinou uso de tornozeleiras eletrônicas, cancelou passaportes e proibiu suspeitos de viajar ou entrar nas dependências da Receita Federal, medidas que teriam gerado indignação. O texto afirma ainda que ele utilizou a relatoria do inquérito das fake news para enquadrar servidores do Fisco.
A revista recorda que, em 2019, Moraes teria utilizado o mesmo inquérito para encerrar investigação na Receita Federal que envolvia servidores e ministros do STF. No mesmo período, a revista Crusoé publicou reportagem sobre supostas ligações entre Toffoli e executivos da Odebrecht, posteriormente retirada do ar por decisão judicial.
Segundo a Economist, após a publicação, Moraes determinou a remoção do conteúdo com base na investigação sobre notícias falsas e recuou após reação pública.
A reportagem também sustenta que a interação entre empresas e integrantes da Corte seria frequente e cita o ministro Gilmar Mendes. O texto menciona evento anual realizado em Lisboa, apelidado de “Gilmarpalooza”, que reúne políticos, magistrados e empresários, alguns com processos no STF.
De acordo com a revista, o encontro é organizado por universidade privada fundada por Mendes e atualmente dirigida por seu filho, que teria recebido recursos de grupos empresariais com interesses no Judiciário.
Na parte final, a Economist destaca proposta do presidente do STF, Edson Fachin, para criação de código de conduta para ministros, inspirado em modelos dos Estados Unidos e da Alemanha, com relatoria da ministra Cármen Lúcia. Segundo a publicação, Toffoli e Moraes afirmaram que nunca julgaram casos com conflito de interesses e consideram desnecessária a adoção de código de ética.
