A escolha de transformar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em protagonista de um samba-enredo na Acadêmicos de Niterói não é apenas uma decisão artística, é um gesto político explícito, com implicações que ultrapassam o espetáculo e entram no terreno da ética pública.

O enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” não surge em um vácuo cultural. Ele é apresentado em pleno exercício de mandato, em um país profundamente polarizado, e inevitavelmente funciona como peça simbólica de promoção política.

A avenida da Marquês de Sapucaí, que deveria ser espaço plural de expressão popular, corre o risco de se tornar um palco institucionalizado de exaltação governamental.

É ingênuo tratar a homenagem como mero tributo histórico. Ao colocar no centro da narrativa um presidente em exercício, a mensagem transmitida deixa de ser apenas cultural e passa a dialogar diretamente com a construção de imagem política.

Em termos práticos, a simbologia é poderosa: milhões de espectadores, cobertura nacional e internacional e um enredo que reforça a figura do líder como símbolo de esperança.

Esse tipo de exposição flerta com a lógica da propaganda antecipada. Não se trata de um debate jurídico estrito, mas de uma questão de equilíbrio democrático.

Quando a máquina simbólica da cultura popular converge com a narrativa de um governo, a assimetria de visibilidade se torna evidente. Não é possível ignorar o contexto político. A proximidade histórica entre setores culturais e o partido do presidente amplia a percepção de que a homenagem não é neutra.

Ainda que não haja formalmente uma campanha, o efeito prático é o de reforço de capital político em um ambiente festivo e emocional, onde a crítica tende a ser diluída pela celebração.

A cultura, quando instrumentalizada, perde parte de sua potência crítica e se converte em narrativa institucional. E é exatamente essa sensação que provoca desconforto: a de que o espetáculo não apenas conta uma história, mas ajuda a consolidar um projeto de poder.

O ponto mais sensível, porém, está no financiamento. Em um país que enfrenta gargalos históricos em áreas essenciais, a percepção de que recursos federais — diretos ou via incentivos — ajudam a sustentar um evento que enaltece o próprio governo é, no mínimo, politicamente inadequada.

Não se trata de demonizar o investimento em cultura, mas de questionar a coerência e o timing. Quando o Estado financia, ainda que indiretamente, uma narrativa elogiosa ao chefe do Executivo, cria-se um conflito simbólico difícil de ignorar. A imagem transmitida é a de um poder que, além de governar, celebra a si mesmo com apoio institucional.

Homenagens fazem parte da cultura, mas a escolha de celebrar um presidente em exercício com amplo aparato simbólico e sob o guarda-chuva de recursos públicos ultrapassa o campo do tributo e entra no da conveniência política. O resultado é um espetáculo que, em vez de unir, aprofunda divisões e levanta dúvidas legítimas sobre os limites entre arte e poder.

A pergunta que permanece não é sobre o brilho do desfile, mas sobre o precedente que ele estabelece: quando o Estado e a cultura se encontram para exaltar quem governa, quem garante que a festa continua sendo de todos — e não de um projeto político específico?

*Por Arthur Everton


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