*Por Marlon Botão, ex-secretário de Cultura de São Luís, marqueteiro e militante político há mais de 40 anos

De uns dias para cá, ganhou força a narrativa de que o presidente Lula teria “vetado” Orleans na disputa ao Governo do Maranhão. A tese circula com desenvoltura, mas não resiste a um exame sério da história — com H maiúsculo — do próprio PT e do modo como Lula sempre operou politicamente.

Lula e Orleans Brandão

A menos que alguém acredite que Lula, depois dos 80 anos, tenha perdido a sanidade política que o levou a três mandatos presidenciais e a um quarto em curso, falar em veto nesse momento é desconhecer o lulismo. Lula se notabilizou por estar acima das amarras internas do partido quando o assunto é eleição. Ele sempre agiu de forma pragmática, avaliando correlação de forças, voto e viabilidade. Nunca foi refém de corrente, grupo ou desejo local.

Desde 2002, quando o PT se transformou definitivamente em partido de massa, a lógica eleitoral passou a ser central. A partir dali, o partido deixou para trás uma dinâmica mais fechada e ideológica, o que provocou dissidências importantes — correntes que saíram e fundaram outras legendas no campo da esquerda, como PSTU e, mais adiante, PSOL. O PT ampliou alianças, flexibilizou estratégias e consolidou a prioridade eleitoral como eixo principal.

Quem conhece a história recente do Maranhão sabe que Lula nunca teve dificuldade em tomar decisões duras quando julgou necessário. Em 2010, por exemplo, havia um desenho local consolidado. Mesmo assim, a direção nacional interveio e alterou o rumo da disputa no Estado. Não se trata de revisitar conflitos nem de atacar famílias políticas. Trata-se apenas de lembrar que, quando Lula decide, ele decide com base em cálculo político — não em rumor ou capricho.

É por isso que a tese de “veto” a Orleans não se sustenta. O que orienta Lula não é afinidade pessoal nem intriga de bastidor. É voto. É viabilidade. É resultado.

E aqui entra um dado incontornável: historicamente, o PT no Maranhão foi um dos que menos prosperaram eleitoralmente no país. Em 2022, elegeu apenas um deputado federal — Rubens Júnior — e ainda assim muito mais por estrutura própria do que por força orgânica partidária. No plano estadual, o desempenho foi tímido. Esse é o fato.

Diante desse quadro, insistir numa narrativa de veto pode significar, mais uma vez, isolar o partido de uma composição viável e repetir um padrão de encolhimento político. A história — com H — mostra que, sem alianças amplas e sem conexão com quem tem base consolidada no território, o PT maranhense não avança.

Eu me coloco nesse debate com autoridade. Estou no PT desde 1988. Em 2012, fui candidato a vereador pelo partido e obtive quase 1.500 votos, ficando na suplência. Conheço a dinâmica interna, as correntes, os avanços e os erros. Sei que o partido cresceu quando pensou grande e encolheu quando se fechou em disputas internas.

Naquele mesmo 2012, o PT fez uma coligação estratégica que incluiu Pedro Lucas Fernandes, então no PTB, já com estrutura consolidada. O resultado foi a eleição dele e também de Honorato Fernandes pelo PT. Foi uma decisão pragmática, orientada por viabilidade eleitoral. Não houve purismo. Houve cálculo.

É nessa lógica que Lula sempre operou. Ele nunca entrou em “bola dividida” no Maranhão por vaidade local. Sempre observou a realidade como ela é. E a realidade é simples: eleição presidencial se ganha com voto. Em 2026, o cenário será novamente polarizado. O Nordeste continuará sendo peça-chave. E, além da Presidência, estará em jogo a composição do Congresso Nacional — senadores e deputados fundamentais para garantir governabilidade.

Dizer que a prioridade nacional de Lula passa por vetar um nome no Maranhão, ignorando a correlação local de forças, é balela. O presidente Lula sabe que o governador Carlos Brandão vive e conhece muito bem o dia a dia da política do Maranhão. A decisão sobre o candidato que o governador apoiará é, antes de tudo, do governador. Por respeito institucional e pela relação construída, ele consulta Lula. Mas Lula também sabe que, sem quem tem base real no Estado, não se faz maioria.

Se o PT decidir lançar candidatura própria no Maranhão, que o faça com responsabilidade e estratégia. Que consolide essa proposta eleitoralmente. Que apresente viabilidade. Que traga votos. O que não pode é transformar divergência em picuinha interna, enfraquecendo o partido e, de quebra, prejudicando o projeto nacional.

A história — com H — ensina que o PT cresce quando age com pragmatismo e senso de realidade. E encolhe quando se deixa levar por disputas internas desconectadas do território.

No fim das contas, Lula sempre fez a mesma pergunta: quem tem voto? Como ampliar? Como vencer? No Maranhão, essa resposta não passa por veto imaginário. Passa por estratégia, composição e responsabilidade histórica.

O resto é estória. ‎


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

×