O projeto Caranguejo de Araioses, desenvolvido em parceria com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e a Universidade Federal do Maranhão (UFMA), aposta no uso da tecnologia como uma alternativa promissora para organizar a produção e a comercialização do caranguejo-uçá na pesca artesanal.

A iniciativa busca profissionalizar a gestão pesqueira sem comprometer a identidade comunitária e os laços culturais que envolvem essa atividade tradicional, valorizando tanto o conhecimento local quanto a inovação tecnológica.

A proposta surgiu na cidade de Araioses, no Maranhão, por meio do projeto de Inovação e Capacitação da Cadeia do Caranguejo, que se destaca por criar soluções digitais e práticas para fortalecer toda a cadeia produtiva do crustáceo, fundamental para a subsistência dos pescadores e pescadoras artesanais.

Uma das principais ferramentas desenvolvidas é o Sistema Uçá, uma plataforma digital pensada para realidades rurais e tradicionais, onde muitas vezes há limitações de infraestrutura tecnológica e baixa alfabetização digital.

A ferramenta integra gestão administrativa, automação documental e monitoramento ambiental, oferecendo às cooperativas mecanismos para profissionalizar suas operações e, ao mesmo tempo, preservar suas tradições comunitárias.

Recentemente, o Sistema Uçá foi registrado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), garantindo proteção legal à tecnologia e assegurando a autoria e titularidade institucional do sistema. Para a coordenadora do projeto, Priscila Bernardes, o registro é essencial não apenas para proteger a inovação, mas também para viabilizar sua expansão.

“Transformando o Sistema Uçá em um ativo de inovação oficialmente reconhecido, apto a ser licenciado, transferido ou expandido para outras cooperativas e instituições, o registro assegura proteção jurídica, valorização institucional e viabiliza a escalabilidade e a sustentabilidade futura do projeto”, explica.

O Sistema Uçá automatiza processos essenciais, como contratos de compra e venda, registro de transações, controle de compradores e geração de documentos formais, reduzindo erros administrativos, aumentando a transparência interna e fortalecendo a credibilidade das cooperativas perante parceiros comerciais e instituições públicas.

Além disso, a coordenadora destaca que a iniciativa abre caminho para novas oportunidades econômicas, como comércio digital, rastreabilidade de produtos e certificações ambientais, agregando valor à produção local.

“Não é só uma ferramenta tecnológica, é um instrumento de inclusão digital, fortalecimento da governança comunitária e garantia de continuidade das atividades produtivas tradicionais, conectando inovação e tradição em favor do desenvolvimento sustentável”, completa Priscila.

O projeto Caranguejo de Araioses faz parte do programa “Saberes das Águas”, que integra o Povos da Pesca Artesanal, iniciativa da Secretaria Nacional da Pesca Artesanal voltada para a capacitação de pescadores e pescadoras.

Com uma abordagem participativa, o programa busca fortalecer os modos de vida das comunidades pesqueiras, promovendo justiça social, cultural e ambiental e fornecendo subsídios para a formulação de políticas públicas mais eficazes.

Para Ornela Fortes, coordenadora-geral de Assistência Técnica e Extensão Pesqueira do MPA, a pesca artesanal sempre produziu conhecimento técnico de altíssima qualidade, mesmo que nem sempre tenha sido reconhecido formalmente.

“Se muitos territórios seguem conservados e produtivos até hoje, é porque as comunidades souberam cuidar desses ambientes ao longo do tempo”, afirma.

Segundo Ornela, o projeto Caranguejo de Araioses une saberes tradicionais e conhecimento científico de forma respeitosa e coletiva, criando soluções que fazem sentido no dia a dia da pesca artesanal.

“Estamos falando de inovação como tecnologia social participativa, construída a partir dos modos de vida das comunidades pesqueiras artesanais, para melhorar as condições de trabalho, fortalecer a segurança alimentar, qualificar o produto e ampliar a autonomia organizativa e econômica”, conclui.


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