A cena se repete em milhões de casas brasileiras logo cedo: um comprimido de losartana engolido com água antes do café da manhã.

O gesto automático, incorporado à rotina de boa parte da população, ajuda a explicar um fenômeno marcante da saúde nacional.
O medicamento é hoje o genérico mais vendido do país, superando até analgésicos populares como dipirona e nimesulida. O domínio da losartana não se deve apenas ao envelhecimento da população.
Os números confirmam o diagnóstico: três em cada dez adultos brasileiros são hipertensos, percentual superior à média mundial de 24%.
E o cenário ficou ainda mais rígido com a nova Diretriz Brasileira de Hipertensão (2025), que passou a classificar 12×8 como pré-hipertensão, ampliando o grupo de risco e, naturalmente, o número de pacientes em tratamento.
O resultado é um país que mede pouco, descobre tarde e trata muito, especialmente com losartana.
POR QUE A LOSARTANA SE TORNOU INDISPENSÁVEL
Para entender a popularidade do medicamento, é preciso voltar ao mecanismo que regula a pressão arterial.
Os vasos sanguíneos funcionam como tubos que se contraem ou relaxam para controlar o fluxo de sangue.
Quem orquestra esse movimento é o sistema renina–angiotensina–aldosterona, responsável por ajustar a pressão e o volume de líquidos no corpo.
Na hipertensão, esse sistema atua como se estivesse permanentemente em alerta, enviando sinais para contrair os vasos e reter sódio e água — combinação que aumenta a pressão arterial.
A losartana interfere exatamente nesse ponto. Ela bloqueia o receptor AT1, impedindo que a angiotensina II entregue ao vaso sanguíneo a “ordem” para se contrair.
A fórmula é eficaz, segura e previsível. Mas há outros motivos que explicam seu sucesso: é barata; é produzida por vários fabricantes nacionais e é distribuída gratuitamente pelo SUS.
COMO A LOSARTANA SE DIFERENCIA DE OUTROS
Embora seja o rosto mais conhecido do tratamento, a losartana não é a única — e nem sempre é a melhor — opção. No Brasil, há três grupos principais de medicamentos de primeira linha:
1. Diuréticos
Eliminam sal e água, reduzindo o volume circulante. São baratos, eficazes e geralmente usados como base da terapia.
2. Bloqueadores de canais de cálcio
Como anlodipina e nifedipina, que relaxam e dilatam artérias menores, reduzindo a resistência dos vasos.
3. Bloqueadores do sistema renina–angiotensina–aldosterona
Onde estão losartana, candesartana e omesartana. Impedem que a angiotensina II contraia as artérias.
A losartana, lançada nos anos 1990, foi a primeira da classe — e por isso se popularizou. Mas tem características específicas: seu efeito é melhor quando a dose é dividida em intervalos de 12 horas, o que limita sua praticidade como monoterapia.
Em compensação, tem vantagens específicas, como ajudar a reduzir ácido úrico, benefício para pacientes com níveis elevados.
Já as versões mais modernas, como candesartana e omesartana, têm:
- ligação mais forte ao receptor;
- maior duração;
- eficácia comprovada em dose única diária.
O bom perfil de segurança e tolerância também contribuiu para outro fenômeno: o uso indiscriminado. O problema é que a pressão estabilizada não significa saúde controlada.
O remédio alivia o sintoma, mas não trata a causa. A losartana pode mascarar problemas graves, como: apneia do sono; estenose de artéria renal e feocromocitoma.
A diretriz de 2025 reforça que o cuidado precisa ser mais amplo. O risco cardiovascular envolve obesidade, glicemia, colesterol, sono, estresse e atividade física — e não apenas o número da pressão.
Mas o documento também evidencia um problema crônico: o Brasil falha em prevenir. Na ausência de acompanhamento contínuo, a losartana vira o único cuidado constante, quando o problema começou anos antes.
O USO CONTÍNUO É SEGURO?
No uso adequado, a losartana é segura, afirmam os especialistas. O preocupação maior não é com o tempo de uso, mas com a qualidade da fabricação.
A apreensão dos pacientes aumentou após os recalls de 2018, quando lotes foram encontrados com nitrosaminas — substâncias potencialmente cancerígenas se presentes em níveis altos. O INCQS analisou lotes em 2025 e encontrou zero contaminação.
O remédio controla a pressão, mas não resolve causas como: sedentarismo; apneia do sono; obesidade; estresse crônico e dieta rica em sal.
Entre as medidas mais eficazes estão:
- reduzir o sal;
- aumentar o consumo de potássio;
- praticar atividade física (150 min/semana);
- dormir melhor e tratar apneia;
- controlar o peso;
- evitar álcool;
- gerenciar o estresse;
- medir a pressão com regularidade.






