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Criado no Rio de Janeiro no fim da década de 1970, o Comando Vermelho (CV) está presente atualmente em 24 estados brasileiros, segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen).

A facção mantém influência em presídios de quase todo o país — com exceção de São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul.

Dez dias após a megaoperação que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro (sendo 117 suspeitos e 4 policiais).

De acordo com o professor Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, da Escola de Direito da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o principal motivo está na formação histórica das facções locais.

“O Rio Grande do Sul desenvolveu um ecossistema criminal próprio. Já havia organizações locais atuando de forma consolidada em comunidades e presídios nos anos 1990 e 2000, especialmente no Presídio Central de Porto Alegre, antes da expansão nacional do CV”, explica Azevedo.

Território do Rio Grande do Sul

Esses grupos ocuparam o espaço de poder criminal de forma autônoma, sem dependência de facções de fora do estado.

O juiz Sidinei Brzuska, que atuou por mais de duas décadas na Vara de Execuções Criminais (VEC) de Porto Alegre, ressalta que, nos últimos anos, houve interiorização das facções gaúchas.

“Praticamente todas as prisões mais relevantes são dominadas. As facções deixaram de disputar pontos de tráfico na capital e expandiram para cidades do interior que ainda não tinham crime organizado. Não ficou vácuo de poder para grupos externos”, explica.

Conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Rio Grande do Sul chegou a ter o maior número de facções ativas do país — ao menos dez —, o que cria um ambiente altamente competitivo.

“A multiplicidade de grupos locais dificulta a hegemonia de uma organização nacional. Cada facção domina seus nichos — bairros, presídios, municípios — e constrói redes próprias de proteção e financiamento”, completa Azevedo.

FATORES CULTURAIS E PACTO INFORMAL

Para o jornalista Renato Dornelles, autor do documentário Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil e do livro Falange Gaúcha, há também um componente cultural que ajuda a explicar a resistência ao Comando Vermelho.

“Aqui existe uma espécie de pacto informal entre as facções, para que nenhuma delas ceda espaço a organizações de fora. É também uma questão de identidade local, muito forte no estado”, observa.

O juiz Brzuska concorda: “O Rio Grande do Sul é um estado com forte tradição cultural, e isso se reflete até mesmo na forma como o crime se organiza”.

Apesar da ausência de células do CV no território gaúcho, especialistas apontam que existem alianças comerciais entre o grupo carioca e facções locais, principalmente no fornecimento de drogas.

Segundo Alberto Kopittke, diretor do Instituto Cidade Segura, as relações são pontuais e baseadas em negócios:

“Não há uma bandeira do Comando Vermelho no RS, mas há cooperação em transações ilícitas. Vimos reflexos disso em 2016 e 2017, durante a ‘guerra civil nacional’ entre o CV e o PCC, quando aumentou a violência também aqui”, afirma.

Azevedo complementa: “São interações pontuais, voltadas a rotas de distribuição ou compra de grandes cargas. Não há expansão territorial nem incorporação simbólica. O que existe é comércio, não comando”.

INTERIORIZAÇÃO E ESTRATÉGIA LOCAL

Enquanto o Comando Vermelho busca expandir-se nacionalmente, as facções do Rio Grande do Sul apostam na interiorização — fortalecendo sua presença em cidades médias e no entorno da Região Metropolitana de Porto Alegre.

Segundo Azevedo, a estratégia é “reduzir a exposição e aproveitar o aumento do consumo local e das rotas que conectam o estado a outras regiões”.

O jornalista Dornelles acrescenta que facções gaúchas chegaram a tentar expandir para Santa Catarina, mas enfrentaram resistência de grupos locais e a presença do PCC.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS) afirmou que o estado se destaca por “características socioculturais muito peculiares” e pela distância das principais rotas logísticas do país.

“Esses fatores, somados à ação vigilante e contundente dos órgãos de segurança pública, ajudam a explicar a ausência de organizações criminosas como o CV e o PCC no Rio Grande do Sul”, diz o texto.

A SSP acrescentou que a manutenção desse cenário exige monitoramento constante: “É importante seguir avaliando o contexto de forma permanente, para manter o estado na vanguarda da segurança pública brasileira.”



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