O preço para conter o avanço do aquecimento global é gigantesco: US$ 8 trilhões por ano até 2035. Esse é o volume de recursos que o mundo precisaria mobilizar para impedir que a temperatura média do planeta ultrapasse 1,5 ºC nas próximas décadas.

O cálculo inclui investimentos essenciais para transformar cadeias produtivas, desde a produção sustentável de alimentos até a recuperação de florestas, o desenvolvimento de energias limpas e outras ações fundamentais para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
A estimativa é do Grupo de Especialistas Independentes de Alto Nível em Financiamento Climático, da London School of Economics, e foi apresentada na COP 2024, no Azerbaijão.
O tema volta ao centro das discussões na COP 30, em Belém, onde um dos principais impasses é como os países conseguirão levantar esses trilhões necessários.
Enquanto não há consenso global, o Brasil já busca construir seus próprios caminhos. No campo, a expansão das práticas agropecuárias sustentáveis tem sido impulsionada principalmente pelo crédito rural — empréstimos bancários contratados pelos próprios produtores.
Um desafio central, porém, é fazer com que esses recursos cheguem também aos pequenos agricultores e comunidades tradicionais.
QUANTO AS NAÇÕES ESTÃO DISPOSTAS A PAGAR
Embora não tenha um cálculo específico para o Brasil, o grupo da London School estima que países emergentes e em desenvolvimento precisarão, juntos, de US$ 3,5 trilhões por ano até 2035 para financiar a transição climática.
A discussão sobre quem deve pagar essa conta acompanha a história das Conferências do Clima. Países ricos — como Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha — são considerados “devedores climáticos”, por terem se industrializado primeiro e enriquecido com base em combustíveis altamente poluentes, como petróleo e carvão.
Após a COP 2024, ficou estabelecido que as nações desenvolvidas deverão destinar ao menos US$ 300 bilhões aos países em desenvolvimento até 2035. A expectativa global é que o total chegue a US$ 1,3 trilhão no período.
Esse volume, no entanto, não deve vir prioritariamente de doações, mas sim de linhas de empréstimo com juros mais baixos, explica o gerente de Ciências do Clima do Imaflora, Paulo Camuri.
Um exemplo dessa nova arquitetura financeira é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposta brasileira que prevê um modelo semelhante ao de investimentos de renda fixa para financiar a conservação de florestas tropicais.
QUEM FINANCIA A AGRICULTURA SUSTENTÁVEL NO BRASIL
Enquanto o mundo debate como financiar a transição nos países pobres, dados da ONG Climate Policy Initiative (CPI) mostram que o Brasil tem arcado com a maior parte dos investimentos climáticos relacionados ao uso da terra — incluindo agropecuária sustentável e preservação florestal.
Segundo o diretor-executivo da CPI, Juliano Assunção, a ausência de uma ação climática global robusta faz com que grande parte da responsabilidade acabe recaindo sobre os próprios países.
O relatório da entidade aponta que o crédito rural é hoje a principal fonte de financiamento climático para uso da terra, representando 58% dos recursos. Na prática, a transição tem sido bancadas por empréstimos assumidos por produtores rurais para adotar:
- plantio direto;
- integração lavoura-pecuária-floresta;
- agroecologia;
- agroflorestas;
- recuperação de pastagens degradadas.
POUCO CRÉDITO PARA SUSTENTABILIDADE
O crédito rural é regulado anualmente pelo governo federal por meio do Plano Safra, que inclui linhas voltadas à sustentabilidade, como: RenovAgro (antigo Plano ABC); e Pronaf Floresta, Bioeconomia e Agroecologia, para pequenos agricultores.
Mesmo assim, esses financiamentos ainda representam uma fatia pequena do total. Um levantamento da consultoria Agroicone mostra que os empréstimos voltados para práticas sustentáveis somaram R$ 69,2 bilhões na safra 2024/25, apenas 23,2% de todo o crédito rural.
AS BARREIRAS PARA PEQUENOS PRODUTORES
O maior gargalo do financiamento climático no Brasil está no acesso ao crédito por pequenos agricultores, povos indígenas, quilombolas, extrativistas e pescadores.
Segundo a diretora-executiva do Fundo Casa Socioambiental, Cristina Orpheo, esse público — que é justamente o que mais preserva a sociobiodiversidade — continua sendo o menos alcançado pelo crédito rural. As linhas do Pronaf, destinadas a eles, representam apenas 17% do crédito subvencionado.
Além de menos recursos, há a resistência dos próprios bancos, explica Paulo Camuri, do Imaflora: grandes instituições priorizam projetos de maior valor, que justificam custos de fiscalização e análise.
Muitas vezes, o obstáculo está antes mesmo da agência bancária. Documentação básica, ausência de conta bancária e desconhecimento sobre crédito rural impedem que milhares de pequenos produtores utilizem os programas do governo, explica Fabíola Zerbini, diretora da Conexsus.
A ONG criou o CredAmbiental, iniciativa que capacita moradores das próprias comunidades para atuarem como “ativadores de crédito” — pessoas que organizam documentos, elaboram projetos, negociam com bancos e acompanham os financiamentos.
FILANTROPIA E FUNDOS CLIMÁTICOS
Para Cristina Orpheo, embora o crédito rural seja fundamental, ele não basta quando o assunto é inclusão e justiça socioambiental.
Pequenos produtores e povos tradicionais precisam também de recursos diretos, flexíveis e de longo prazo, que não exijam devolução — como doações e incentivos públicos e privados.
Atualmente, a filantropia corresponde a apenas 0,06% de todo o financiamento climático relacionado à agropecuária e florestas no Brasil, segundo a CPI.
Há ainda os fundos climáticos, como:
– Fundo Amazônia, que financia ações de combate ao desmatamento e apoio a projetos de comunidades tradicionais — retomado em 2023 após anos de paralisação;
– Fundo Clima, criado em 2009, que hoje possui apenas 1% de seus recursos destinados a investimentos não reembolsáveis.
O restante — cerca de R$ 24 bilhões — é administrado pelo BNDES e distribuído principalmente para os setores de indústria (57%) e infraestrutura (38%). Apenas 1% chega à agropecuária, e 98% beneficiam médias e grandes empresas.






