O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, fez duras críticas ao investimento em combustíveis fósseis e afirmou que o mundo falhou em manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C, como previsto no Acordo de Paris.

O discurso foi realizado nesta quinta-feira (6), durante a Cúpula dos Líderes, que marca a abertura política da COP30, em Belém (PA).
“Precisamos de uma mudança fundamental de paradigma para limitar a magnitude e a duração dessa ultrapassagem e reduzi-la rapidamente”, alertou Guterres, destacando que o planeta já enfrenta as consequências socioeconômicas do aumento das temperaturas e que apenas uma ação conjunta poderá evitar colapsos ambientais e humanitários.
PLANO TRILIONÁRIO PARA FINANCIAR AÇÕES CLIMÁTICAS
O líder da ONU ressaltou a importância do plano das presidências da COP29 e da COP30, conhecido como “Roteiro de Baku a Belém”, que pretende mobilizar ao menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para financiar medidas contra a crise climática, com foco nos países em desenvolvimento.
“Devemos demonstrar um caminho claro e confiável para alcançar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático até 2035”, afirmou. Ele lembrou que, até o momento, os países em desenvolvimento receberam apenas US$ 60,8 bilhões, menos de 2% dos US$ 3,4 trilhões necessários até 2030 para cumprir metas climáticas e se adaptar a eventos extremos.
Pelo plano, os países ricos devem liderar o esforço, mobilizando US$ 300 bilhões anuais e garantindo que o financiamento seja acessível, previsível e em larga escala.
Guterres iniciou o discurso reconhecendo que as nações fracassaram em garantir que o aquecimento global permanecesse abaixo do limite de 1,5°C.
Segundo ele, a ciência já indica que a ultrapassagem temporária desse limite será inevitável até o início da próxima década.
“A ciência agora nos diz que uma ultrapassagem temporária do limite de 1,5°C – começando, no mais tardar, no início da década de 2030 – é inevitável”, lamentou.
O secretário-geral alertou que essa elevação pode levar ecossistemas a pontos de ruptura catastróficos, expondo bilhões de pessoas a condições inabitáveis e ameaçando a paz e a segurança global. Ele classificou o limite de 1,5°C como “uma linha vermelha para a humanidade”.
Mesmo com os compromissos assumidos até agora, os planos nacionais de mitigação colocam o planeta em um caminho de aproximadamente 2,3°C de aquecimento, apontou Guterres.
‘COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS CONTINUAM RECEBENDO ENORMES SUBSÍDIOS’
Em tom crítico, o chefe da ONU denunciou que, enquanto trilhões são necessários para conter o colapso climático, os combustíveis fósseis ainda recebem bilhões em subsídios e apoio político.
“Os combustíveis fósseis continuam recebendo enormes subsídios – dinheiro público – e apoio político. Gastam bilhões em lobby, enganam o público e bloqueiam o progresso”, afirmou.
Guterres classificou o lobby das indústrias de carvão, petróleo e gás como um dos maiores entraves à transição energética e à adoção de fontes renováveis em escala global.
O secretário-geral afirmou que as soluções tecnológicas para conter o aquecimento global já existem, mas faltam vontade e coragem política para implementá-las.
“O obstáculo não é a tecnologia. Temos as soluções para transformar nossas economias e proteger nossas populações. O obstáculo é a coragem política”, disse, criticando líderes que continuam presos a interesses ligados aos combustíveis fósseis.
GUTERRES COBRA AÇÃO IMEDIATA E LIDERANÇA
O líder da ONU defendeu uma resposta mais rápida e efetiva à crise climática, especialmente por parte das nações mais ricas.
Ele cobrou que esses países cumpram compromissos e mobilizem US$ 300 bilhões anuais para financiar a transição energética global.
Entre as medidas urgentes, Guterres listou:
- Fechar a lacuna de ambição das metas nacionais (NDCs) rumo a 1,5°C;
- Impulsionar uma nova era energética baseada em fontes renováveis, eletrificação e eficiência;
- Construir redes modernas e sistemas de armazenamento em larga escala;
- Interromper e reverter o desmatamento até 2030;
- Reduzir as emissões de metano;
- Eliminar progressivamente o uso do carvão;
- Encerrar a aprovação de novos projetos de petróleo e gás.
‘FAÇAM DE BELÉM O PONTO DE VIRADA’
Encerrando o discurso, Guterres fez um apelo para que a COP30 marque um ponto de virada global no combate à crise climática.
“Os países em desenvolvimento devem deixar Belém equipados com um pacote de justiça climática que garanta equidade, dignidade e oportunidade”, declarou.
O secretário-geral reforçou a necessidade de um plano concreto de financiamento e de uma transição energética justa e inclusiva, com foco em solidariedade internacional.
“Escolham velocidade, escala e solidariedade — agora. Façam de Belém o ponto de virada”, finalizou.






