A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (12), a Operação Coffee Break, com o objetivo de desarticular um esquema de fraudes em licitações públicas e desvio de recursos do Ministério da Educação (MEC). As investigações apontam que a ex-nora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Carla Ariane Trindade, teria atuado politicamente para destravar pagamentos a empresas envolvidas nas irregularidades.

Carla Ariane foi casada com Marcos Cláudio Lula da Silva, filho do presidente e da ex-primeira-dama Marisa Letícia. Segundo os investigadores, ela é suspeita de pressionar pela liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para o pagamento de contratos superfaturados firmados com prefeituras paulistas. A Polícia Federal afirma que a ex-nora de Lula chegou a viajar a Brasília em duas ocasiões, com despesas custeadas por empresários investigados, com o objetivo de interceder junto a servidores e gestores públicos.
O esquema teria movimentado mais de R$ 125 milhões por meio de contratos superfaturados, especialmente com a empresa Life Tecnologia Educacional, sediada em São Paulo e pertencente ao empresário André Gonçalves Mariano, apontado como o principal articulador das fraudes. A companhia recebeu R$ 52 milhões do Fundeb para fornecer kits de robótica e livros didáticos ao município de Sumaré (SP), além de contratos de R$ 17,9 milhões com a prefeitura de Hortolândia e R$ 10,7 milhões com a de Limeira.
De acordo com a PF, a Life Tecnologia não tinha estrutura compatível com o volume de contratos e revendia livros comprados a R$ 1 ou R$ 5 por valores entre R$ 60 e R$ 80. Somente 17% do montante recebido pela empresa foi destinado a fornecedores, o que reforça as suspeitas de desvio e lavagem de dinheiro. Parte dos recursos era repassada a empresas de fachada ligadas a doleiros, usadas para mascarar o pagamento de propinas e “comissões” a servidores públicos e intermediários políticos.
As investigações revelam ainda que André Mariano mantinha uma rede de contatos com lobistas e gestores municipais para facilitar a aprovação de licitações e a liberação dos recursos federais. Entre seus aliados estaria o lobista Kalil Bittar, irmão de Fernando Bittar, um dos proprietários do sítio em Atibaia, citado em investigações da Operação Lava Jato. Kalil seria o responsável por abrir portas em ministérios e órgãos públicos, especialmente após o segundo turno das eleições de 2022, quando, segundo a PF, o grupo passou a buscar influência direta em ministérios e governos estaduais ligados ao PT.
Os policiais encontraram registros em agendas de Mariano que citavam Carla Ariane com o codinome “café”, termo que, conforme a PF, seria usado para indicar pagamentos de propina. Também foram apreendidos extratos bancários e mensagens que indicam negociações sobre repasses de valores e encontros com empresários.
A operação, autorizada pela 1ª Vara Federal de Campinas, cumpriu 50 mandados de busca e apreensão e seis prisões preventivas em São Paulo, Distrito Federal e Paraná. A decisão judicial destaca que as medidas foram necessárias para interromper o fluxo de recursos ilícitos e evitar a destruição de provas.
Carla Ariane não teve prisão decretada, mas foi alvo de mandado de busca e apreensão em endereços ligados a ela. Os policiais apreenderam documentos, celulares e computadores que agora passam por perícia. A investigação busca identificar a amplitude da participação da ex-nora do presidente e possíveis conexões entre o grupo empresarial e servidores públicos do MEC e do FNDE.
Segundo a Polícia Federal, o esquema operava de forma organizada, com divisão de funções entre empresários, lobistas e operadores financeiros. As empresas investigadas, de acordo com o relatório da PF, foram beneficiadas em licitações de dezenas de municípios, com recursos federais destinados à compra de material escolar e tecnologias educacionais.
A Controladoria-Geral da União (CGU) acompanha as apurações e deve abrir processos administrativos para responsabilizar servidores e empresas envolvidas. A investigação segue em andamento, e novas medidas judiciais podem ser solicitadas à Justiça Federal nos próximos dias.






