O endividamento das famílias brasileiras que contrataram o Crédito do Trabalhador aumentou 80% em apenas cinco meses, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central. O saldo das operações passou de R$ 18,4 bilhões em fevereiro para R$ 33,1 bilhões em julho, revelando um crescimento maior da modalidade criada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ampliar o acesso ao crédito consignado entre trabalhadores da iniciativa privada.

O programa foi lançado com o objetivo de permitir que brasileiros substituíssem dívidas de alto custo, como cheque especial e rotativo do cartão de crédito, por empréstimos com juros mais baixos. No entanto, o relatório do Banco Central aponta que, apesar de uma breve redução no endividamento em modalidades mais caras, o saldo total voltou a crescer nos meses seguintes, o que acende o alerta para o aumento do comprometimento da renda das famílias e o risco de inadimplência.

O Crédito do Trabalhador aprimora as regras do crédito consignado, permitindo o desconto das parcelas diretamente na folha de pagamento. As instituições financeiras podem resgatar os valores por meio da empresa contratante do trabalhador. Desde fevereiro, o governo ampliou o público beneficiado, incluindo trabalhadores rurais e empregados domésticos. Em caso de demissão, o pagamento pode ser redirecionado para novos vínculos empregatícios, e o trabalhador pode utilizar a multa rescisória e o saldo do FGTS como garantia em caso de inadimplência.

Entre março e julho, foram firmados 3 milhões de contratos de crédito consignado privado, sendo 2,3 milhões referentes ao Crédito do Trabalhador. No período, as concessões somaram R$ 21,9 bilhões, dos quais R$ 13,6 bilhões pertencem à nova modalidade. Embora o volume de concessões seja relevante, o Banco Central afirma que o impacto sobre o crédito bancário agregado ainda é limitado, considerando todas as modalidades de crédito com recursos livres.

A taxa média de juros do Crédito do Trabalhador atingiu 58% ao ano até julho, superior aos 36,2% do consignado tradicional, baseado em convênios entre empresas e bancos. Segundo o Banco Central, a diferença está relacionada ao perfil do tomador e ao porte da empresa empregadora. A mediana da renda dos beneficiários do novo crédito é de R$ 2.603, inferior aos R$ 2.925 dos trabalhadores com consignado convencional. Além disso, o tempo médio de vínculo empregatício é menor e há uma proporção mais alta de pessoas com baixa escolaridade.

O diretor de Política Econômica do Banco Central, Diogo Abry Guillen, explicou que o público atendido pela nova modalidade possui menor instrução, renda mais baixa e trabalha, em geral, em empresas de pequeno porte. Esse perfil, segundo ele, justifica as taxas de juros mais elevadas, já que as instituições financeiras consideram o risco de crédito maior.

Especialistas ouvidos pela imprensa e entidades do setor financeiro destacam que, embora o Crédito do Trabalhador seja uma alternativa para trocar dívidas caras por empréstimos mais baratos, o uso inadequado pode agravar o endividamento das famílias. O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Fabio Bentes, alerta que a modalidade só traz benefícios se o tomador utilizar o recurso para quitar débitos mais onerosos, como os do cartão de crédito, cuja taxa média chegou a 451,5% ao ano em agosto.

Um levantamento da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira revelou que 69% dos brasileiros não avaliaram o impacto do empréstimo no orçamento antes de contratar. O estudo, que ouviu 800 pessoas, mostrou ainda que 83% dos contratantes desconhecem a taxa de juros paga, e apenas 36% utilizaram o crédito para quitar dívidas antigas. Segundo o presidente da entidade, Reinaldo Domingos, o crédito consignado pode ser uma ferramenta positiva de reeducação financeira, mas o uso precipitado e desinformado tem levado a um endividamento estrutural entre trabalhadores da iniciativa privada.

Apesar das críticas, o Ministério do Trabalho defende o Crédito do Trabalhador como instrumento de inclusão financeira. O órgão informou que, até 19 de setembro, mais de R$ 50 bilhões em crédito já haviam sido contratados por 5,4 milhões de trabalhadores. Do total, R$ 3,2 bilhões correspondem a contratos antigos renegociados pelas instituições financeiras. Atualmente, 122 instituições estão habilitadas a operar a modalidade, das quais 64 já realizam operações.

De acordo com o secretário de Políticas de Proteção ao Trabalhador, Carlos Augusto Simões Gonçalves, o programa se destaca por oferecer juros menores que os do crédito pessoal comum, cuja taxa média é de 11% ao mês. No Crédito do Trabalhador, a média é de 3,42% ao mês. Segundo ele, a modalidade tem ritmo acelerado de expansão e contribui para a formalização e o acesso ao crédito de milhares de brasileiros com menor renda, ainda que exija atenção para evitar o aumento do endividamento das famílias.


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