O sonho de montar uma pousada em um lugar paradisíaco começou a tomar forma quando a arquiteta Luiza Aquino fez a travessia dos Lençóis a pé em 2019, de Atins a Santo Amaro, visitando uma lagoa mais bela que a outra pelo caminho.

Para a paulistana, as experiências mais incríveis, além das lagoas, se encontram em diferentes trechos do Rio Alegre, que contorna Santo Amaro.
Subindo, no passeio ao povoado do Espigão observa-se a transformação do rio chegando às dunas; Betânia, mais abaixo, é o vilarejo mais visitado nos roteiros, e encanta pelos restaurantes em ilhas fluviais, onde só se chega de barquinho na maior parte do ano.
De lá é possível seguir até Santo Amaro de caiaque, numa vivência mais silenciosa. Ali, o rio se alarga em um lago, de onde saem lanchas rumo ao povoado América, de onde uma curta caminhada revela lagoas azuis entre as dunas. Isso tudo sem contar o espetáculo da revoada dos guarás.
Para crescer no turismo nacional e internacional, o Maranhão aposta em pelo menos dois destinos reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Unesco, respectivamente nos aspectos Cultural e Natural.
Entre o casario colonial da capital, São Luís, e o cenário único do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, vem crescendo, junto com o número de visitantes a cada ano, a oferta de experiências exclusivas voltadas ao viajante que busca sofisticação, autenticidade e vivências personalizadas.
Um ano depois daquela viagem, a arquiteta Luiza voltou, sozinha e em plena pandemia, com o objetivo de encontrar o terreno perfeito para seu plano.
“Eu tinha o sonho de erguer uma pousada utilizando as técnicas de bioconstrução e fiquei encantada com as moradias de adobe que vimos nas comunidades, como utilizam a madeira e a palha de carnaúba”.
Passados cinco anos, hoje a Pousada Vila do Junco conta com 16 bangalôs, alguns com jardim privativo, uma equipe de 15 pessoas e um restaurante terceirizado, o Caçoeira Gastrobar que está entre os mais bem avaliados do lugar. Instalado dentro da pousada, serve hóspedes e é também aberto ao público.
“Minha visão era ter um lugar diferente, rústico com jardins e feito com base na arquitetura regional da região”, diz Luiza. “Trabalhamos para oferecer um serviço caloroso, como um oásis na cidade”.
A casa reúne diversas categorias de bangalôs e o cliente pode fechar o serviço com tudo, desde o transfer do aeroporto, a hospedagem e passeios – experiências de natureza e esportes náuticos.
A diária para duas pessoas com café da manhã custa entre R$ 900 a R$ 1.200 e Luiza mantém um tarifário fixo, sem variação por sazonalidade.
“Embora de junho a agosto seja considerada a alta temporada, eu amo esse lugar em abril e maio, antes da multidão que chega e quando as lagoas estão mais bonitas”, sugere.
QUASE 40% MAIS VISITANTES
Nos primeiros sete meses deste ano, os Lençóis Maranhenses receberam 381,1 mil visitantes, o que representa crescimento de 37,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da Secretaria de Turismo do Maranhão e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia responsável pela administração das Unidades de Conservação federais.
Em 2024, o parque nacional havia registrado 440 mil visitas, consolidando-se como um dos destinos naturais mais procurados do País. Esses dados são organizados e analisados pelo Observatório do Turismo do Maranhão, da Secretaria de Estado do Turismo.
O desempenho local começa a dialogar com o crescimento do mercado global de turismo de luxo, que chegou aos US$ 2,5 bilhões no ano passado e segue em rota ascendente, segundo estimativa da Fortune Business Insights.
O relatório da consultoria projeta um salto para US$ 4,8 bilhões até 2032, com taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 8,56%.
Para conectar o conjunto de potencialidades locais a esse amplo mercado, setores público e privado vêm investindo em experiências exclusivas, hospedagens em estilo boutique, roteiros personalizados e equipamentos culturais de excelência, para atrair visitantes dispostos a pagar mais desde que receba autenticidade, conforto e privacidade.
LUXO NOS LENÇÓIS MARANHENSES
O TP Group, referência no mercado de luxo, também fincou sua bandeira no Estado. Desde 2023 iniciou, nos Lençóis Maranhenses, as operações da Oiá, marca com foco em ecoturismo e sustentabilidade.
A Oiá Casa Lençóis, localizada em Santo Amaro, foi construída na antiga Fazenda Boca da Ilha e a proposta de hospitalidade leva a assinatura da designer de interiores Marina Linhares.
O projeto de decoração inclui cerâmicas e palhas do artesanato da região e peças do design moderno brasileiro, como as cadeiras Bola de Lina Bo Bardi e poltronas de franja Cariri, em palha de buriti, de Neca Abrantes.
São oito suítes disponíveis geralmente no período de maio a novembro, duas na casa principal outras duas em cada um dos três bangalôs. Fora desse período, a casa costuma ficar voltada para atividades internas, como manutenção e capacitação da mão de obra, de acordo com uma visão de respeito e consciência ambiental, diz a gerente executiva, Mariana Villas-Boas.
“Temos consciência de que este é um lugar único no planeta e nos preparamos para oferecer uma estrutura compatível com os clientes da TP Group”, afirma Mariana. “O luxo não é o caro, mas o raro”, completa. A propriedade fica em meio a 52,5 mil m² de vegetação nativa, cercada pelas lagoas sazonais de água cristalina, onde uma estrutura é montada para que os hóspedes desfrutem da paisagem com conforto.
Dentre os passeios oferecidos, com guias exclusivos, há opções em veículos 4×4, quadriciclo e barco, trilhas privativas e surpresas preparadas pela equipe da casa.
Além de todas as atividades, a experiência de luxo conta com pensão completa de alta gastronomia, piqueniques e jantar à luz de velas.
O funcionamento da Oiá Casa Lençóis em 2025 se estende até o fim do ano com diárias a partir de R$ 7.510 para duas pessoas até 20/12. Nos feriados de Natal (4 noites) e Réveillon (5 noites), os valores por noite começam em R$ 37.500 para grupos ou famílias com até dez pessoas.
TREKKING E HOSPEDAGEM TEMPORÁRIA
De 2023 para 2025, a ocupação subiu de 24,80% para 72,81% (mesmo com duas suítes a mais atualmente). O grupo não pretende ampliar a construção nos Lençóis, mas está atento a possibilidades para ampliar a experiência dos viajantes.
Neste ano, criou uma jornada de quatro noites, conectando Santo Amaro à remota comunidade de Patacas, com a opção de trekking de quatro horas imerso nos cenários locais.
Outro investimento na mesma região maranhense, em parceria com a Casa Gota d’Ayá, resultou na hospedaria temporária Oiá Pop Up Atins, com seis bangalôs na mesma linha da casa em Santo Amaro, funcionando só na alta temporada, de junho a setembro. Existe a ideia de repetir a dose em 2026.
DA AVENTURA AO QUEIJO ARTESANAL
Atins é uma vila de pescadores que aos poucos vem se transformando em reduto do luxo nos Lençóis, com pousadas-boutique, lojas, restaurantes e bares em número que cresce a cada nova temporada.
Por ser um povoado da cidade de Barreirinhas, não possui perímetro urbano definido, mas estima-se que a área urbanizada se estenda por cerca de 3 a 5 km², de acordo com interpretação de imagens de satélite e dados públicos de geolocalização.
E, nesse espaço, equivalente a pouco mais de duas vezes a área do Parque do Ibirapuera, estão em plena atividade pelo menos dez hotéis de luxo (de acordo com a plataforma Booking.com), três restaurantes de alto padrão e diversos serviços exclusivos, como escolas de kitesurf, passeios e atividades personalizadas. Isso sem contar o que não entra nesses catálogos, como a Oiá.
HOTÉIS-BOUTIQUE EM PRÉDIOS HISTÓRICOS
O Maranhão começa a ter sua imagem reposicionada no mercado turístico, com consequente aumento de visitantes.
O fluxo total (embarques e desembarques) nos aeroportos de São Luís, Imperatriz (segunda maior cidade do estado) e Barreirinhas (principal porta de entrada para os Lençóis) deve passar dos 2 milhões de registro, o que supera o volume de 2019 (antes da pandemia de covid), quando ainda nem existia o aeroporto em Barreirinhas.
De janeiro a julho, ultrapassou a marca de 1,2 milhão, de acordo com números da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e da Esaero. O número está 11,40% acima do acumulado no mesmo período do ano passado.
Segundo a concessionária Motiva, que administra o Aeroporto de São Luís, cerca de 820 mil viajantes passaram pelo terminal entre janeiro e junho deste ano, um aumento de quase 10% em relação ao mesmo período de 2024.
Em julho de 2025, o aeroporto registrou seu melhor resultado em um único mês nos últimos 13 anos: 202 mil passageiros, um crescimento de 21% quando comparado com julho do ano passado.
“Vemos de forma positiva esses investimentos se concretizando, pois só com investimento os destinos podem se consolidar”, diz o coordenador do Observatório do Turismo do Maranhão, Igor Carneiro de Almeida. “E ao mesmo tempo, há a necessidade de conscientização, com atenção à preservação do patrimônio, de entender o que precisa melhorar para que os investimentos elevem a experiência dos visitantes e também a vida da população local, gerando emprego e renda”, analisa.
A rede internacional de hotéis Vila Galé incluiu o Maranhão em seu plano de expansão e deve inaugurar em São Luís, até o final de 2027, duas unidades do selo Collection, voltado a empreendimentos premium e hotéis boutiques.
O investimento de R$ 105 milhões é fruto de parceria com o Governo do Maranhão, por meio da concessão de dois edifícios localizados no centro histórico da capital, que abrigaram a antiga Defensoria Pública e a Casa do Maranhão.
Como contrapartida à concessão, além do restauro, adaptação e operação dos hotéis, a Vila Galé estima a geração de 150 empregos diretos e outros 300 indiretos.
“O Maranhão, e em especial São Luís, possui um enorme potencial turístico ainda pouco explorado internacionalmente. Acreditamos que este é o momento certo para apostar na região, contribuindo para o desenvolvimento econômico local e ampliando a presença da Vila Galé no Brasil”, afirma o diretor de Operações Brasil da rede, José António Bastos.
NOVO COMPLEXO CULTURAL EM SÃO LUÍS
Pela administração da cidade, os principais investimentos são no patrimônio histórico e cultural.
A Fundação Municipal do Patrimônio Histórico (FUMPH) coordena dois grandes projetos que somam R$ 91 milhões, parte pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) e outra pelo Instituto Cultural Vale, tudo via Lei Rouanet. Um deles é o Complexo Trapiche Santo Ângelo.
O projeto recuperou e transformou cinco armazéns do século 19, construídos na área portuária da capital, em prédios administrativos e espaços culturais.
“Um deles abrigou a primeira prensa de algodão do país, época em que o Maranhão era um dos maiores produtores do mundo”, destaca a presidente da FUMPH, Kátia Bogéa.
Na área de 20 mil m², funcionarão cinco secretarias municipais, incluindo um Centro de Criatividade e Inovação, um restaurante-escola do Senac (será o segundo instalado na cidade), um espaço cultural multiuso com auditório para 300 lugares e uma esplanada.
É o lugar da festa de inauguração com um cortejo de 60 cazumbas, personagem mítico do bumba meu boi.
Também é uma forma de homenagear outro bem maranhense reconhecido pela Unesco: o Complexo do Bumba Meu Boi do Maranhão, desde 2019 declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
MUSEU DO AZULEJO COM ADRIANA VAREJÃO
A criação do Museu Nacional do Azulejo já tem protocolo em tramitação no Instituto Brasileiro de Museus. “São Luís foi a primeira cidade no mundo a usar azulejos para revestir fachadas inteiras, na segunda metade do século 19, como solução para proteger as edificações da umidade no intenso período de chuvas, o que influenciou esse tipo de uso no Brasil e no mundo. Em razão da beleza dessas fachadas, ficou conhecida na época como cidade de porcelana”, afirma Kátia.
O suntuoso palacete de três pavimentos, construído no período pombalino, abrigará um acervo com cerca de 7 mil peças, incluindo uma coleção que vai do século 9 até o 19, adquirida em Madri, incluindo acervos do mundo árabe, da Pérsia, da Mesopotâmia e da Península Ibérica; azulejaria brasileira do século 20 para cá, incluindo obras de Volpi, Portinari, Athos Bulcão e Burle Marx, dentre outros.
O presidente do Instituto Pedra, Luiz Fernando de Almeida, assina a curadoria internacional; e Pablo Lafuente, diretor artístico do MAM Rio, é responsável pela curadoria dos brasileiros.
Logo na entrada o visitante será recepcionado por um painel de Adriana Varejão e no alto verá um lustre dos irmãos Campana. No pátio interno, os artistas maranhenses Silvana Mendes, Paulo César e Thiago Martins de Melo, assinam outros painéis.
Além das salas de exposição, o prédio contará com café e loja. A experiência da visita ao Museu do Azulejo se completará nas ruas do centro histórico, onde boa parte do acervo está conservada em fachadas e painéis internos: por meio de um aplicativo o visitante receberá o mapa dos prédios e suas histórias.
*Por Andréa Oliveira (Estadão)






