Aos 18 anos, o bailarino maranhense Marcos Sousa tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar um contrato vitalício com o corpo de baile da tradicional Ópera Nacional de Paris, uma das companhias de balé mais prestigiadas do mundo.

A confirmação veio no último dia 28 de junho, após uma seleção acirrada. Agora, ele se prepara para retornar à capital francesa e iniciar oficialmente essa nova fase da sua carreira internacional.
Natural de Grajaú, no interior do Maranhão, Marcos sempre teve uma relação íntima com a dança. Ainda menino, se destacava nas festas juninas locais, dançando em quadrilhas.
Foi justamente em uma dessas apresentações que chamou a atenção do coreógrafo Timóteo Cortez, que o convidou para ingressar em uma academia da cidade aos 10 anos.
Depois de um breve afastamento, Marcos retornou aos palcos incentivado pela possibilidade de participar de uma pré-seleção para a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil.
Em 2019, com apenas 12 anos, foi aprovado após passar por etapas em São Luís e em Joinville (SC), onde ingressou na escola em 2020.
DISTÂNCIA, PANDEMIA E SUPERAÇÃO
Logo no início da sua trajetória na escola, enfrentou grandes desafios. Sozinho em Joinville, longe da família e em um ambiente completamente novo, Marcos ainda precisou lidar com as dificuldades impostas pela pandemia da covid-19, que interrompeu as aulas presenciais pouco tempo após o início do curso.
Em 2021, ganhou a companhia da mãe, que se mudou para Santa Catarina para ficar mais próxima do filho. Com apoio e dedicação, Marcos seguiu sua formação, sempre determinado a buscar novos horizontes.
A vontade de estudar na École de Danse de l’Opéra National de Paris, uma das mais respeitadas do mundo, crescia a cada dia.
Em 2022, ousou enviar um e-mail — que ele mesmo descreve como “bem abusado” — para a instituição, pedindo uma chance de fazer uma audição.
Sem resposta, insistiu no início de 2023, desta vez em francês. Recebeu então a tão esperada resposta: um convite para enviar um vídeo com uma série de exercícios.
Em junho daquele ano, viajou para Paris acompanhado de Germana Saraiva, sua primeira professora no Bolshoi do Brasil.
Quatro dias antes da audição, sofreu uma entorse no pé direito, mas decidiu seguir em frente, mesmo com dor. Ao final da seleção, foi aprovado pela diretora da escola, Élisabeth Platel.
ADAPTAÇÃO E CRESCIMENTO NA FRANÇA
Admitido na terceira divisão da escola (os alunos começam na sexta e sobem até a primeira), enfrentou mais um período de adaptação.
Com o tempo, passou a dominar o francês e fazer amigos, além de conquistar seu espaço artístico. Seu progresso foi tão expressivo que avançou uma série antes do previsto.
Mas os desafios continuaram. Em novembro de 2024, sofreu uma lesão no tornozelo esquerdo e precisou parar por dois meses.
Com paciência e dedicação, retornou aos palcos em janeiro de 2025. Em abril, participou de um espetáculo na Ópera Garnier, ao lado do também brasileiro João Pedro Silva.
CONQUISTA HISTÓRICA
Com o fim do curso se aproximando, a preocupação com o futuro bateu à porta. Marcos chegou a fazer audições em Amsterdã e até no Teatro Bolshoi, em Moscou.
Mas foi no dia 28 de junho de 2025 que viveu seu momento mais marcante: participou do concurso para integrar o corpo de baile da Ópera Nacional de Paris.
O processo seletivo incluiu uma aula com exercícios de centro e saltos, sem uso de barra, além de uma variação solo — no caso de Marcos, um trecho de “A Bela Adormecida”, na versão do coreógrafo russo Rudolf Nureyev. Ao final da seleção, os nomes dos aprovados foram colados em uma parede.
Além dele, mais dois rapazes e quatro meninas da mesma turma foram selecionados.
Marcos é o primeiro homem brasileiro a obter um contrato vitalício com o corpo de baile da Ópera Nacional de Paris.
BOLSHOI NO BRASIL: A PONTE PARA O MUNDO
A Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, com sede em Joinville, é a única extensão internacional do famoso teatro russo. Inaugurada em 2000, a instituição oferece formação técnica gratuita e é reconhecida como uma importante ferramenta de transformação social.
Atualmente, atende cerca de 260 alunos de diversos países, todos com bolsas de estudo integrais. Segundo o diretor-geral da escola, Pavel Kazarian, mais de 70% dos formados atuam profissionalmente na dança.
