São Luís, 8 de setembro de 1912. Nessa data, por incrível que pareça, foi comemorado, oficialmente, o primeiro aniversário da cidade de São Luís. Uma longa espera de 300 anos, mas o evento foi memorável.

Naquela manhã do dia 8, um desfile militar percorreu vários pontos da cidade, terminando na Avenida Maranhense, atual D. Pedro II. Não faltaram autoridades civis, militares e religiosas, como era costume naqueles tempos.
O próprio governador da época, Luís Domingues, abriu os trabalhos. Toda a cerimônia foi animada por uma banda marcial que tocava alternadamente os três hinos: Hino Nacional, Hino da França e o Hino do Maranhão.
A área da atual praça D. Pedro II foi decorada com as cores da bandeira nacional, os tons tricolores da República francesa e as cores da bandeira do Maranhão. Uma festança!
O evento foi devidamente registrado no Diário Oficial do dia 9 de setembro de 1912. Polêmicas à parte, São Luís seria oficializada como única capital brasileira fundada pelos franceses.
300 anos antes. Era 8 de setembro de 1612. Manhã nublada, ventos intensos, típicos daquele mês. Essa é a data da primeira missa dos frades capuchinhos franceses, que na ocasião ergueram uma cruz na atual praça Dom Pedro II.
Esse cerimonial foi considerado, por historiadores como José Ribeiro do Amaral, como evidência da intenção francesa de fundar uma nova cidade nos trópicos.
Os franceses chegaram à ilha de Upaon-Açu em princípios de agosto 1612. A tal cruz foi implantada num morro alto, com ampla visão para a baia, na divisão entre os rios Bacanga e Anil, próximo ao local do atual Palácio do Leões.
Estavam presentes muitas chefias indígenas, principalmente o conhecido chefe tupinambá Japiaçu, o maioral da Ilha. Na Europa, Maria de Médici, que governava a França durante a menoridade do filho, Luís XIII, queria que o Maranhão fosse uma “Nova França”.
A armada francesa, saída do porto de Cancale, em março de 1612, liderada pelo calvinista Daniel de La Touche, estava formada por três navios, com cerca de 500 pessoas: Regente, Charllote e Saint-anne.
As notícias não demoraram a chegar a Lisboa e Madrid. Os boatos de uma associação entre franceses e holandeses motivaram, pouco tempo depois, a própria reação portuguesa, com a retomada da cidade, liderada por Jerônimo de Albuquerque, em 1615.
Nos documentos de época, os franceses eram chamados de “piratas”. No entanto, sabemos hoje que famílias inteiras, incluindo crianças e adolescentes, vieram ao Maranhão entre os anos de 1612 e 1614.
Os franceses não eram, na sua maioria, militares ou mercenários, mas sim negociantes, profissionais de várias áreas, civis.
Os motivos que trouxeram tanta gente da Europa para o Maranhão eram, em geral, a busca por novas oportunidades de riquezas na América.
O Maranhão tinha já fama na Europa de terra boa para cultivo de tabaco, algodão, arroz nativo e madeiras corantes. Até boatos sobre minas de prata e lápis lazúli ajudaram a aumentar o “hype”!
Ilha Rebelde, 8 de setembro de 2025. Nos últimos anos, novas pesquisas têm revelado detalhes empolgantes sobre aquele período. Ao mesmo tempo, as omissões da historiografia nacional são, infelizmente, consideráveis.
São Luís não era uma simples cidade, perdida ao norte do “Brasil”. Em junho de 1621, com a criação do Estado do Maranhão, São Luís vira a capital de um território que hoje seria equivalente a toda Amazônia Legal.
Ou seja, a ilha era a capital administrativa de um território com 5 milhões de km², correspondente a cerca de 59% do território brasileiro. Era completamente independente de Salvador, na Bahia.
Em dias de hoje, seria como se São Luís fosse a sede administrativa de outros oito estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima, e parte dos estados do Mato Grosso e Tocantins. Aliás, para recuperar São Luís, o monarca espanhol, Filipe III (1578-1621), permitiu pela primeira vez que os portugueses deliberadamente ultrapassassem a Linha de Tordesilhas, em 1615.
Algo realmente inédito! Há ainda pouca repercussão nacional sobre personagens indígenas do Maranhão. O primeiro arquiteto da Amazônia, que projetou a parte norte do colégio dos jesuítas, em São Luís, em 1627, era um indígena, Gregório Mitagaia.
As guerras ocorridas aqui, envolvendo franceses, portugueses, holandeses, na verdade, eram guerras indígenas, com técnica, armamento, canoas e táticas indígenas. Incluindo, os “generais”, como Dom Antônio Marapirão, chefe tabajara que sabia ler e escrever e mandava cartas ao próprio rei, D. João IV (1604-1656). No século XVII, São Luís era uma cidade conectada com o Mundo.
A partir do seu porto, o algodão, o tabaco, o arroz e, até mesmo, o urucum eram exportados para lugares como Amsterdam, Rotterdam, Londres e Paris pelas rotas do Atlântico Norte. Há histórias ainda desconhecidas. Perto de São Luís, em Alcântara, entre 1617 e 1620, houve a Revolta de Cumã, possivelmente a maior revolta indígena do século XVII! Sabemos pouco sobre a chegada dos primeiros escravizados africanos à cidade, vindos da rota da Guiné Equatorial.
Menos, ainda, sobre as mulheres indígenas, mestiças ou africanas. Portanto, a história de São Luís do século XVII é bem mais rica, e relativamente inexplorada, não se resumindo a Padre Vieira ou à Revolta de Beckman.
Por fim, gostemos ou não das efemérides, como o caso da comemoração deste dia 8, temos que admitir que elas nos possibilitam singulares momentos de reflexão.
Numa época repleta de anticiência, autocracias, derrocada de impérios, defesa orgulhosa e tosca de desigualdades ancestrais, travestida de discurso de modernização e meritocracia, a História, sim, tem função social.
Autor: Alirio Cardoso. Doutor em História pela Universidad de Salamanca (Espanha). Professor de História do Maranhão Colonial da Universidade Federal do Maranhão.
