A Faixa de Gaza vive uma escalada alarmante na crise humanitária. Um novo relatório da Classificação Integrada de Fases da Segurança Alimentar (IPC, na sigla em inglês), apoiado pela ONU, alertou nesta semana que “o pior cenário possível de fome está atualmente se concretizando” no território palestino.

Segundo o documento, a fome, a desnutrição aguda e doenças associadas estão provocando aumento nas mortes, especialmente na Cidade de Gaza.

“Dados mais recentes indicam que os limiares de fome foram atingidos em relação ao consumo de alimentos na maior parte da Faixa de Gaza e à desnutrição aguda na Cidade de Gaza”, afirma a análise técnica.

Em maio, o IPC já havia classificado a situação como de “risco crítico” para os cerca de 2,1 milhões de palestinos que vivem no território, indicando níveis extremos de insegurança alimentar.

Agora, o cenário se agrava, embora ainda não tenha sido feita uma declaração formal de fome — algo que depende de critérios técnicos rigorosos e da disponibilidade de dados, dificultada pelas restrições no território.

Entre os dados mais graves apresentados pelo relatório estão:

– Acesso a alimentos e serviços essenciais caiu a níveis sem precedentes;

– Dobrou a proporção de famílias em fome extrema entre maio e julho;

– A taxa de desnutrição aguda na Cidade de Gaza passou de 4,4% em maio para 16,5% em julho;

– Dois quintos das mulheres grávidas ou lactantes estavam desnutridas em junho;

– O norte de Gaza é apontado como área crítica, mas a falta de dados impede confirmação do quadro completo.

Além disso, o documento destaca que “apenas uma ação imediata para encerrar as hostilidades” e garantir acesso humanitário amplo e sem impedimentos pode evitar um colapso ainda maior e mais mortes.

CRÍTICAS À AJUDA HUMANITÁRIA

O relatório também critica a atuação da Gaza Humanitarian Foundation (GHF) — grupo apoiado por Israel e pelos Estados Unidos — no fornecimento de alimentos.

O Comitê de Revisão de Fome da IPC avaliou que o plano de distribuição da GHF “levaria à fome em massa”.

Entre os problemas apontados:

– Os pacotes de alimentos não são prontos para consumo, exigindo água e combustível, recursos escassos na região;

– Os pontos de distribuição exigem longos e arriscados deslocamentos, com acesso desigual entre as áreas.

ISRAEL NEGA FOME EM GAZA

Apesar dos dados apresentados, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, negou veementemente a existência de fome em Gaza.

“Não há política de fome em Gaza, e não há fome em Gaza. Que mentira descarada”, declarou no último domingo (27).

Em linha com essa posição, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, disse a jornalistas que o país não bloqueia a entrada de ajuda humanitária.

Segundo ele, mais de 200 caminhões com suprimentos entraram em Gaza recentemente. “Não há rota que não estejamos utilizando”, garantiu.

Ele também citou pausas táticas entre 10h e 20h para permitir a distribuição de ajuda e lançamentos aéreos de alimentos.

No entanto, o relatório da IPC contesta essa narrativa, destacando que a ajuda segue extremamente limitada por causa da recusa de pedidos de acesso humanitário e da insegurança generalizada na região.

O QUE CARACTERIZA FORMALMENTE UMA SITUAÇÃO DE FOME?

A IPC não declara uma fome formalmente, mas oferece as análises técnicas que embasam decisões de governos e organismos internacionais. Segundo os critérios, três condições precisam ser verificadas:

1. Pelo menos 20% das famílias enfrentarem escassez extrema de alimentos;

2. Mais de 30% das crianças menores de cinco anos sofrerem de desnutrição aguda;

3. Taxa de mortalidade diária de pelo menos duas mortes adultas ou quatro mortes infantis por 10 mil habitantes, atribuídas à fome.

Coletar esses dados, no entanto, tem sido extremamente difícil em Gaza, devido aos bloqueios, combates e restrições de acesso, segundo organizações como Médicos Sem Fronteiras e Ação Contra a Fome.

Enquanto a ONU e entidades humanitárias pedem medidas urgentes, a população de Gaza continua sob o peso de uma das crises alimentares mais graves do mundo contemporâneo.


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