Em seu primeiro encontro com os cardeais após a eleição como 267º papa da Igreja Católica, Leão XIV sinalizou neste sábado (10) que pretende dar continuidade às reformas de seu antecessor, o Papa Francisco.

O pontífice americano, nascido Robert Francis Prevost, destacou o “legado precioso” deixado por Francisco e afirmou que seu pontificado buscará consolidar os avanços promovidos nos últimos anos.

“Vamos assumir este legado precioso e continuar a jornada”, disse. Leão XIV destacou como prioridade o diálogo com o mundo contemporâneo, um dos pilares da gestão anterior.

Escolha do nome e foco social

Ao explicar sua escolha pelo nome Leão XIV, o papa afirmou que quis homenagear Leão XIII, pontífice do século 19 conhecido por sua defesa dos direitos dos trabalhadores. O novo papa relacionou essa escolha ao compromisso com causas sociais diante dos desafios impostos pela chamada “nova revolução industrial” — marcada pela ascensão da inteligência artificial.

Leão XIV também renovou o apoio às reformas iniciadas no Concílio Vaticano II, como o uso das línguas locais nas missas e o diálogo inter-religioso, medidas que, segundo ele, foram acolhidas “com maestria” por Francisco.

O papa alertou ainda para os riscos da inteligência artificial. Segundo ele, a Igreja deve assumir um papel de liderança ética para evitar que as novas tecnologias comprometam a dignidade humana, agravem desigualdades sociais e provoquem instabilidade no mundo do trabalho.

Desafios e críticas em meio a denúncias de abusos

Um dos grandes desafios de Leão XIV será a continuidade do combate aos abusos sexuais dentro da Igreja. Apesar de seu papel reconhecido na dissolução da congregação peruana Sodalício de Vida Cristã — acusada de múltiplos casos de abuso —, ONGs como SNAP e Bishop Accountability questionam sua atuação à frente da diocese de Chiclayo, no Peru, entre 2013 e 2025.

As entidades afirmam que, durante esse período, o então bispo não teria tomado medidas firmes diante de denúncias de abusos contra um sacerdote local, enviando à Santa Sé informações consideradas “inadequadas”. A SNAP destacou que três vítimas chegaram a procurar a diocese, mas não foram ouvidas, e só conseguiram abrir investigação junto às autoridades civis em 2022.

Ainda segundo a Bishop Accountability, quando liderava os agostinianos em Chicago, Prevost permitiu que um padre acusado de abusar de menores morasse em um convento próximo a uma escola.

Como prefeito do Dicastério para os Bispos, entre 2023 e 2025, Leão XIV também foi criticado por manter sigilo sobre investigações de bispos acusados de encobrimento, sem aplicar punições.

Defesa e precedentes positivos

Autoridades da Igreja no Peru defenderam o novo papa. O bispo Edison Farfán, sucessor de Prevost em Chiclayo, afirmou que os procedimentos canônicos foram respeitados e que o sacerdote acusado foi afastado de suas funções. Fidel Purisaca, diretor de comunicações da diocese, disse que o religioso “foi imediatamente enviado para casa”.

A Bishop Accountability reconhece, contudo, que Prevost teve papel importante na denúncia de abusos e na dissolução do Sodalício. Pedro Salinas, uma das vítimas da congregação, afirmou que o atual papa “teve um papel extremamente importante” no processo. Em janeiro, Prevost recebeu no Vaticano uma das vítimas mais conhecidas do caso, José Enrique Escardó.

Agora, organizações de defesa das vítimas cobram de Leão XIV atitudes claras. A SNAP sugeriu que, nos primeiros 100 dias de pontificado, o novo papa implemente uma política global de tolerância zero no direito canônico e crie um fundo de reparação para as vítimas.


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