Marcadas por graves deficiências em saneamento, saúde, educação e infraestrutura, cidades com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil continuam esquecidas no mapa político.

Um levantamento do jornal O Globo, com base em dados do Portal da Transparência do governo federal, revela que 15 dos 20 municípios com piores indicadores sociais não receberam emendas parlamentares ao longo do último ano.

Entre eles estão Fernando Falcão e Marajá do Sena, no Maranhão, que enfrentam abandono estrutural e baixa presença do Estado.

Fernando Falcão

Em Fernando Falcão, onde o IDHM é de apenas 0,44, a última emenda recebida foi em maio de 2025, no valor de R$ 145.896,54, destinada à área da educação.

O recurso era aguardado desde 2019, ou seja, passaram-se seis anos de espera até que o dinheiro fosse finalmente liberado para o município, um dos mais pobres do país.

Já Marajá do Sena, que registra um IDHM ainda menor (0,45), não recebeu nenhum centavo em 2025. A última emenda parlamentar destinada à cidade foi em junho de 2024, no valor de R$ 500 mil, direcionada ao setor da saúde.

Desde então, a cidade permanece sem novos repasses, apesar das carências visíveis e da baixa arrecadação própria.

Ambos os municípios enfrentam problemas históricos de exclusão social e isolamento geográfico, com grande parte da população vivendo em áreas rurais e sem acesso regular a serviços públicos básicos.

Saneamento precário, escolas em condições frágeis, acesso restrito à internet e ausência de pavimentação são alguns dos desafios diários dos moradores.

Apesar da urgência, a distribuição de emendas parlamentares ainda privilegia critérios políticos e não necessariamente as maiores necessidades sociais.

Enquanto cidades como Fernando Falcão e Marajá do Sena seguem esquecidas, municípios com melhores índices ou alinhamento político com governadores e deputados conseguem cifras milionárias.

A situação dramática se repete em diversas localidades da lista dos piores IDHs do Brasil. No total, os 20 municípios mais pobres receberam apenas R$ 20 milhões em emendas parlamentares entre junho de 2024 e maio de 2025 — o que representa só 0,09% do total de R$ 28 bilhões repassados no país no período.

Além da escassez, chama atenção a utilização da chamada “emenda Pix”, modalidade que permite a destinação direta de recursos, sem necessidade de detalhamento prévio de uso e com baixa exigência de prestação de contas, o que agrava ainda mais a falta de transparência.

Cidades como Bagre (PA) não recebem recursos desde 2018, e em outras, como Itamarati (AM), os repasses aprovados em 2016 só foram liberados em 2025.

A situação escancara um sistema desigual, onde os mais pobres continuam dependendo da boa vontade de parlamentares para acessar políticas públicas básicas.

Em Araioses, também no Maranhão, com IDH de 0,521, apenas 42,9% da população têm acesso à água tratada e só 34,4% contam com coleta de lixo, segundo o IBGE. Mesmo assim, o município também está fora da rota de emendas desde 2023.


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