O Conselho Deliberativo do Corinthians aprovou na noite desta segunda-feira (26) o impeachment do presidente Augusto Melo, afastando-o temporariamente do cargo. A decisão, tomada em votação na sede do clube no Tatuapé, zona leste de São Paulo, contou com 176 votos favoráveis, 57 contrários, uma abstenção e um voto em branco. Agora, o processo seguirá para uma segunda votação, desta vez aberta aos associados, que decidirão sobre o afastamento definitivo. A expectativa é que essa votação ocorra em até um mês. Enquanto isso, o primeiro vice-presidente Osmar Stabile assume a presidência interinamente.

Antes da votação, Augusto Melo fez um discurso no qual reconheceu a derrota e destacou os avanços financeiros durante sua gestão. Ele afirmou que sairá de cabeça erguida e pediu desculpas aos torcedores, mas negou qualquer possibilidade de renúncia, dizendo que continuará lutando para manter o cargo. “Não é renúncia. Não vou participar dessa palhaçada, porque sei o que está acontecendo lá dentro. A briga ainda não acabou”, afirmou.
A principal torcida organizada do clube, Gaviões da Fiel, havia publicado uma nota na sexta-feira (23), pedindo o afastamento de Melo para preservar a imagem do Corinthians. A postura da torcida mudou em relação à primeira votação, quando eles haviam defendido o presidente. Agora, no entanto, o grupo não planeja mobilização para acompanhar a votação no clube, pois estará focado no jogo da equipe contra um adversário argentino, marcado para terça-feira (27), participando das caravanas ao país vizinho.
Paralelamente ao processo político, autoridades investigam um esquema envolvendo Melo e outros dirigentes do Corinthians relacionados ao contrato de patrocínio com a empresa de apostas Vai de Bet. Além do presidente afastado, foram indiciados os ex-dirigentes Marcelo Mariano e Sérgio Moura, além de Alex Cassundé, apontado como intermediário da negociação.
O inquérito policial revelou diversas contradições nos depoimentos, especialmente de Cassundé, que afirmou ter sido procurado para buscar patrocínio para o time feminino após a vitória da chapa de Melo na eleição do clube em dezembro de 2023. Ele alegou que encontrou um telefone fixo da empresa, surpreendendo a polícia, que nunca havia localizado contato da Vai de Bet além de um e-mail de suporte. Cassundé diz ter informado Marcelo Mariano sobre a negociação, que deveria ser tratada no Parque São Jorge, sede do clube.
Contudo, a polícia suspeita que Cassundé nunca esteve no local para tais reuniões e considera os depoimentos mentirosos, com base em dados de GPS do celular. O relato sobre quem participou das reuniões diverge, com versões incluindo ou excluindo Melo. O presidente afirmou que assinou o contrato só após aprovação jurídica e que não estava diretamente envolvido na negociação.
A investigação aponta que os verdadeiros intermediários foram outros três homens: Antônio Pereira dos Santos (Toninho), Sandro dos Santos Ribeiro e Washinston de Araújo e Silva. Toninho teria sido designado pela Vai de Bet para conseguir contato com o clube e, junto com os demais, organizou a negociação. Segundo o relatório, o Corinthians teria passado por cima desses intermediários e cadastrado outra empresa, a Rede Social Media Design, cujo dono é André Cassundé.
Além do esquema de intermediação, a polícia identificou que parte da comissão paga pelo Corinthians à intermediadora (totalizando mais de R$ 1 milhão) foi desviada para contas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). O dinheiro teria sido transferido para a UJ Football Talent, empresa apontada como braço do PCC no futebol. Cassundé nega envolvimento nessas movimentações. A ligação da UJ Football Talent com o PCC foi revelada em delação premiada de Antonio Vinícius Gritzbach, assassinado em 2024, que citou um empresário chamado Danilo Lima de Oliveira, conhecido como Tripa, como participante na lavagem de dinheiro.
O delegado responsável pelo caso, Tiago Correia, destacou que o esquema usou estratégias clássicas de lavagem de dinheiro para ocultar a origem ilícita dos recursos desviados do clube. A investigação indica que o dinheiro desviado pode ter sido utilizado para cobrir compromissos pendentes da direção do Corinthians.
Em nota, o clube afirmou que até o momento não há comprovação de autoria nos fatos e declarou apoio às investigações. O Corinthians também disse ser vítima do esquema e que não controla o uso dos valores recebidos por terceiros. Já a empresa Lion Soccer Sports, da qual Danilo Lima é sócio, negou qualquer relação com a UJ Football Talent ou envolvimento no caso.
